Hoje, 28 de Setembro, o Bairro Azul saiu à rua, em massa. Foi a maior manifestação colectiva que alguma vez vi, neste bairro. Não foi necessário nem SMS, nem recorrer à internet para que nos encontrássemos todos, a pouco mais de 10 quilómetros daqui, na Foz do Arelho, junto à última morada do homem que, à esquina do nosso bairro, nos franqueava a porta – O Senhor Luís do Quiosque! Em frente ao féretro, olhando-o, sussurrávamos o que nos passava pela cabeça a todos – Vamos sentir a sua falta; Vai fazer-nos tanta falta. E a saudade já a habitar em cada um de nós...
Pelo meu lado, sinto que ainda não tenho bem clara a distinção entre o meu bairro e o Senhor Luís porque o Senhor Luís era o meu bairro. Ele abria o bairro quando abria o quiosque. Ele dava as primeiras notícias e comentava-as. Ele guardava-me o saco das compras enquanto eu ia tomar um café. Ele emprestava-me uma ou outra revista para acompanhar o café. Ele recebia os recados e encomendas que os meus amigos deixavam. Ele ensinou-me a ler o tempo, olhando para o torniquete que rodava no telhado dos silos e até conseguia dizer como estavam as nuvens da Foz e se os ventos eram propícios à pesca. Tudo isto tranquilamente, referindo sempre a suas experiências de África e terminando com bonomia.
Ele era o meu assinaleiro – assinalava o mais importante de cada dia que passava e eu nunca passava sem um aceno. Era também assim com o meu marido, enquanto viveu para diariamente lhe comprar o jornal e tabaco e conversar um pouco antes de entrar, no seu escritório, na porta mesmo em frente ao Senhor Luís.
Era também assim com as minhas filhas para quem, vir às Caldas era vir ver o Sr. Luís e a D. Natália.
Espantava-me sempre a sua curiosidade por tudo. Se um de nós partia em viagem, ele lá ia procurar no mapa, o sítio do nosso destino e, de regresso, ao entrar pela porta da esquina onde está o quiosque, o Senhor Luís falava-nos desse lugar, como se lá tivesse estado.
Nem consigo imaginar que ao passar no quiosque, só encontrarei a D. Natália dedicada aos jornais e às revistas, sem ter de se ocupar do Senhor Luís. Quando amanhã, comprar o meu jornal, ele saber-me-á a pouco. Quero ter coragem para não desistir de comprar o meu jornal. É que o meu quiosque já não é o mesmo e o meu jornal tem menos sabor porque já não é o Senhor Luís que olhará para a primeira página e perguntará, quanto é hoje?
Obrigada por ter dado tanta vida ao meu bairro, Sr. Luís.
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28 de setembro de 2011
25 de maio de 2011
O SENHOR LUÍS DO QUIOSQUE - Bairro Azul
Coisa boa é o contacto com o pequeno comércio, quando vendedor e cliente estabelecem uma relação que lhes permite conversar, ter confiança mútua e até, algumas confidências.Acontece, com frequência, no Bairro Azul.
O Senhor Luís do Quiosque vende o jornal, mesmo ao cliente que não traz dinheiro consigo; empresta a revista a quem quer ir tomar um cafezinho e folhear as notícias de casamentos, escândalos e divórcios; guarda-nos as compras quando necessário e até dá as notícias do dia. É afável, conversador, pescador e de uma curiosidade permanente. Consulta mapas e o atlas para situar a notícia de países distantes.
À hora de fechar, carrega consigo tudo o que possa atrair a mão e o olhar alheios que, despuradamente, já algumas vezes lhe fizeram grandes estragos. Como "mais vale prevenir do que remediar", o Senhor Luís do Quiosque, ao fim do dia, carrega até casa o tabaco e na manhã seguinte, bem cedo, recomeça.
Faz-nos companhia, O Senhor Luís!
O Senhor Luís do Quiosque vende o jornal, mesmo ao cliente que não traz dinheiro consigo; empresta a revista a quem quer ir tomar um cafezinho e folhear as notícias de casamentos, escândalos e divórcios; guarda-nos as compras quando necessário e até dá as notícias do dia. É afável, conversador, pescador e de uma curiosidade permanente. Consulta mapas e o atlas para situar a notícia de países distantes.
À hora de fechar, carrega consigo tudo o que possa atrair a mão e o olhar alheios que, despuradamente, já algumas vezes lhe fizeram grandes estragos. Como "mais vale prevenir do que remediar", o Senhor Luís do Quiosque, ao fim do dia, carrega até casa o tabaco e na manhã seguinte, bem cedo, recomeça.
Faz-nos companhia, O Senhor Luís!
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