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2 de janeiro de 2010

O Homem de muitas orelhas

Quando chega o dia 2 de Janeiro, ela conta a mesma estória o que, a mim, nada me incomoda. Oiço-a como se fosse a primeira vez e sei que, mais tarde ou mais cedo serei eu a contá-la.
Ela atravessava a estrada diariamente para ir de sua casa a casa da avó, enquanto pequenita, mas no dia 2, corria mais veloz e chegava mais cedo.
A avó cumprimentava-a sempre do mesmo modo. Olá, Nina, já cá estás? Ela respondia com frequência que não gostava que a avó a tratasse por Nina. Valia mais chamar-lhe Tareca, como faziam os tios, porque a achavam parecida com os gatos, devido aos seus olhos tão marcadamente verdes. A avó, sem dar grande importância ao comentário, replicava docemente que ela era a sua menina, a sua nina, e assim a chamava, para abreviar. E os dias continuavam quase sempre iguais, apenas interrompidos pelo ritmo das festividades ou das colheitas, quase sempre entremeado por um provérbio a condizer.
No dia 2 de Janeiro o diálogo era sobre o homem que ali haveria de passar "com tantas orelhas como o ano tem de dias". Esta frase era sempre, mas sempre dita desta forma, pela avó. "Nina, já viste aí passar o homem que tem tantas orelhas, como o ano tem de dias?". A neta ria e respondia que ele deveria estar a passar e que, por isso, era melhor irem ambas para a janela. E lá iam as duas ver passar os homens que iam pegar ao trabalho, ou na serração Madeca ou na oficina do Ferraz ou na Tijomel. Uns iam de bicicleta, outros a pé, mas nenhum de carro. Poucas mulheres se viam. E as crianças só apareciam, de batita branca e mala às costas, por volta das 8 e pouco.
E o tal homem, nada!
Entretanto chegava o padeiro, a buzinar, de bicicleta, com uns seirões, em verga, atrás, onde trazia o pão acabado de fazer.
E o tal homem, nada!
Mas não fazia diferença nenhuma, nem a uma nem a outra, até que ao fim do dia, ambas gracejavam em total cumplicidade: "Afinal o homem não teve tempo para passar por cá hoje. Esperamos para o ano".
E assim se tornava cíclico o tempo de espera pelo novo dia 2 de Janeiro, embora a 3, a avó desvendasse o mistério do homem que afinal tinha passado, ou melhor dos muitos homens que afinal por ali tinham passado porque nesse dia o ano só tem dois dias como, naturalmente, os homens todos. Excepção feita a alguns, como Van Gogh.
Foi assim que ela aprendeu a esperar e a simular o encantamento da surpresa das estórias, mesmo que já bem conhecidas. Também foi assim que conheceu Girassóis em Janeiro.
Hoje, dia 2, ela voltou a contar esta história e a desejar que, para o ano, possamos esperar, de novo, pelo homem que tem tantas orelhas, como o ano tem de dias.

1 de janeiro de 2010

A Última estória de 2009

Em frente ao balcão do banco estendia-se uma longa bicha de pessoas. Todas estavam de pé e todas tinham papéis ou dinheiro na mão. Algumas até já enrolavam entre os dedos uma esferográfica para assinar o que desse e viesse.
Quando o homem, que estava à minha frente, pôs as notas em cima do balcão, eu só vi a cabeça da funcionária a acenar insistentemente que não. Pareceu-me que não havia nada a fazer, embora nem supusesse do que se tratava, nem tivesse conseguido perceber o que o homem, abandonando o balcão, e olhando-me desiludido e inconformado dizia:”então agora nem depositar o dinheiro posso”.
Só depois de ter sido atendida percebi o sentido das suas palavras.
E foi, nessa altura, que o vi já noutra fila. Olhou-me, de novo, e contou-me, num fôlego, que tinha sido impedido de fazer o depósito porque não sabia o número da conta da filha, que estava a estudar, no estrangeiro, e que precisava que ele lhe depositasse uns euros. Assim que recebeu o pedido através de SMS, veio logo ao banco porque amanhã era feriado e como já eram quase 3 horas, levantou logo ali os 200 Euros. Mas a funcionária insistiu: não, não podemos, sem o número de conta. E ele também: Oh! minha senhora, mas é a minha filha. Eu digo-lhe o nome. E assim continuaram: Não podemos. Digo-lhe a data de nascimento. Não pode ser. Mas então… Não pode ser. Mas então? Não pode ser. Dirija-se, então à gerência. E enquanto o homem me contava esta estória e eu começava aperceber a insistência do abanar da cabeça da funcionária, passa uma senhora à nossa frente a quem eu espontaneamente perguntei se, por acaso, era ela a gerência. Que não, mas que podia ajudar a resolver. Explicado o assunto num ápice, a senhora, com um sinal, mandou-o entrar para um cubículo envidraçado.
O homem entrou e eu esperei. Foi rápido. Nem demorou 5 minutos para que eu o visse sair a abanar a cabeça, não como a funcionária, não com tanta veemência, mas com uma certa confusão que ele nem queria entender porque, sem qualquer explicação ou pergunta, a tal senhora, de imediato, lhe depositou os 200€. Não interessa o resto! O importante é que já lá estão.
- Sem o número de conta?
- Sim, sem o número de conta.

Que o ano que começa amanhã nos traga gente simpática e eficiente, como a tal senhora, que não era gerente, mas que podia (e conseguiu) ajudar.
Que os nossos problemas se resolvam tão simplesmente como este dos 200 euros.
Que nós tenhamos força para ultrapassar o acenar de cabeça, em tom negativo, dos pequenos poderes dispostos a dificultar-nos a vida.


Caldas da Rainha, 31 de Dezembro de 2009