20 de janeiro de 2009

Mercearia Pena, vale a pena

Na realidade, este blog não nasceu para falar directamente da sua autora nem dos seus amigos, mas vem agora a propósito referir algo que lhes diz respeito e, dado que se refere à cidade das Caldas e ao papel que os blog's podem ter, aqui vai:
Caldas tem sido notícia, por via do eventual fecho das Faianças Bordalo Pinheiro. Má razão é verdade, mas por isso mesmo, amigos e familiares telefonam a saber se ainda há peças, se vale a pena comprar, se eu tenho comprado, etc, etc. Como não sou coleccionadora nem recolectora nem amante de objectos que dão trabalho a limpar e a arrumar, esquivo-me a essas perguntas dizendo diplomaticamente que estou a acompanhar o processo, etc e tal e que, naturalmente, é bom que venham!
E vêm!
E compram!
E... imaginem só!
Não deixam de ir à Mercearia Pena. Isto tudo, graças ao blog e à qualidade dos produtos PENA!
Aqui fica mais uma foto (de fraca qualidade, é verdade!) para abrir o apetite de todos aqueles que apreciam o comércio de coisas boas.

Vanity

Ainda a propósito de comércio tradicional e das lojas que vale a pena visitar, nas Caldas, aqui ficam algumas fotos da VANITY:




17 de janeiro de 2009

Santo Antão de Óbidos

Este ano, Santo Antão de Óbidos abriu o seu leque protector dos animais, às pequenas avezinhas domésticas. Depois de já ter incluido os cães e gatinhos de estimação nos animais protegidos, passou agora a ter a mesma benevolência para com as aves, simbolizadas neste piriquito, e não noutra, porque este era o único molde que havia no sítio das encomendas de ex-votos de cera.
A organização cedeu aos pedidos dos devotos que têm aves em casa e que, naturalmente, como todos os outros animais, precisam de quem as livre das doenças.

13 de janeiro de 2009

Bongosto nas Caldas

Em frente à Minnilloja fica um vão de escada, uma espécie de arquinha doméstica. É o Bongosto, onde se apanham malhas das meias de vidro, se vendem pinças apropriadas a cada tipo de pêlo, perfumes ao gosto de cada qual e ainda as insignificâncias que davam pelo nome de frivolidades, mas nada comparáveis à cangalhada que enche as prateleiras de lojas de coisas inúteis.
E a senhora, que se queixa já não poder apanhar malhas por falta de quem lhe forneça as agulhas, mantém um role de clientes que diariamente ali deixam dois dedos de conversa rodeadas de frivolidades. O tempo parece não passar por ela. É um prazer vê-la, bonita, de bâton a abrir-lhe o sorriso e a condizer com o colorido das unhas que delicadamente folheiam o livrinho das notas.

12 de janeiro de 2009

Única no Mundo


Única no Mundo é assim que o Sr. Neto define a sua loja. Mesmo com o stock praticamente esgotado, ela merece uma visita e, porque não comprar algo que, por exemplo, não faz vincos e é 100% algodão?



11 de janeiro de 2009

Minnilloja nas Caldas da Rainha




Entrei na loja e perguntei se podia tirar umas fotos. Ele estava a engendrar uma gingajoga para segurar as pernas de uma pequena mesa que teimavam em querer cair.
Que sim, que podia, pois então. Porque não?
E continuou: É pena é que não se possa ver como ela é porque ficou vazia, completamente vazia, vendeu-se tudo, com este frio. tudo. E agora estão todos em balanço e não me mandam mais mercadoria. Ainda agora uma senhora se foi embora sem levar o que queria porque já não tenho. É que não tenho mesmo. Vendeu-se tudo. Mas esta loja é única. Única. Não há igual.
- Pois não.
Falámos, rimos e fui convidada para a festa dos seus 100 anos que há-de ser em S. Martinho do Porto, no mês de Junho de 2023. "Fica já convidada", repetiu. E eu aceitei.

8 de janeiro de 2009

Comércio Tradicional

Questão suscitada pelo comentário do João Serra:
Comprar no coração da cidade das Caldas pode ser tão pouco tradicional como comprar no Vivaci, o Centro Comercial inaugurado em Dezembro.
No fundo, no fundo, esta expressão - comércio tradicional - tem sido usada, não tanto para expressar a longevidade de um determinado comércio, mas antes, as suas especificidades. Daí haver muitas lojas que praticam um comércio inovador, pelos produtos que vendem e pela forma como o fazem, e que preferem instalar-se em zonas das cidades que privilegiam a relação cliente/comerciante. Acontece em Lisboa, no Bairro Alto ou em Campo de Ourique, e aqui mais perto, em Alcobaça, na zona que foi devolvida aos peões, ou mesmo nas Caldas. Veja-se a Vanity ou a charcutaria, ambas no Terreiro das Gralhas.
Na primeira, o atendimento é impecável, agradável e muito íntimo. É uma iniciativa do jovem Elói, criativo e dinâmico. Dá a ver o que de inovador se faz na moda portuguesa e internacional (veja-se foto, em baixo). O cilente é convidado a ver exposições/instalações ou a sentar-se no pátio experior, sem estar sujeito a empurrões e onde sente que é desejado.
Na charcutaria encontra produtos de óptima qualidade, desde pão caseiro, a enchidos, compotas, queijos, frutos secos, e muito mais, mas tudo servido com amabilidade e gentileza. Tanto num, como no outro, somos atendidos pelos próprios donos ou por pessoas que lhes são muito próximas, normalmente, familiares.
A vantagem deste tipo de comércio, para mim, é a empatia que naturalmente surge entre quem está do lado de lá e do lado de cá do balcão, ou mesmo entre clientes. E mais ainda, é o cliente sentir que é desejado, que é conhecido e reconhecido, quando a senhora lhe diz que afinal já tem o produto que prefere ou quando lhe sugere outro produto que substitui o que procura. Ou, quando as coisas correm mal, é óptimo poder reclamar directamente, sem ter que preencher papéis, e ser de imediato atendido. Há excepções... lembro-me de uma tradicionalíssima loja de rendas, malhas, agulhas, retroses, nastros e tecidos... Meu Deus! a antipatia do dono era a marca da casa... mas já toda a gente sabia que era assim... menos eu! quando lá entrei pela primeira vez, há uns 20 anos!
Também na Bertrand do Vivaci poderemos ser muito bem atendidos, poderão respeitar as nossas preferências, poderão ser amáveis, mas faltará qualquer coisa para que se lhe possa chamar "comércio tradicional". Talvez falte o rosto que ainda tem os traços daquele que foi o iniciador da saga.
Portanto, ser tradicinal, a meu ver, nesta coisa do comércio, é criar laços.

1 de janeiro de 2009

Mercearia Pena

PARABÉNS à Mercearia Pena, pelos seus 100 anos.
Quando cheguei às Caldas esta mercearia tinha à porta uns bidões de línguas e caras de bacalhau salgadas e um outro com atum em salmoura. Emanava um cheiro característico de uma mercearia semelhante à que conhecia, em Ourém, do Manuel Cartucho (porque passava o tempo a fazer cartuchos..) que trazia na minha memória. Cheirava também a café ou a cevada. Recordo-me de um moço de recados, já pouco moço, de lentes muito grossas que andava pela cidade, a puxar um pequeno carrinho de duas (ou três rodas... mas não de 4, seguramente), com encomendas, com sacos de bacalhau e coisas semelhantes. Sempre o associei à Mercearia Pena porque era de lá que o via sair, com o seu apetrecho.
Mas eu, apesar de ficar sempre tipo "lèche vitrine", agarrada às montras, fascinada com os merceeiros, e seduzida pelas máquinas de café de balão, nunca fui cliente assídua.
Só a partir de Maio deste ano, já depois da sua remodelação, e depois do fecho da "minha" mercearia - A Linda -, é que me tornei cliente.
Embora já lá entre com muito à-vontade, sinto que ainda não faço parte daqueles clientes que se sentam numa cadeirinha e desfiam o rol das compras, daqueles que a empregada, muito simpaticamente ajuda a transportar os sacos, enfim, daqueles que ouvem de imediato um cumprimento à entrada: "Bom dia, Sr. Fulano, então como vai a D. Sicrana?" ou daqueles que basta espreitarem à porta, para de imediato saberem se já chegou o chá preferido ou as alheiras de caça, ou o tal bacalhau. Percebem?
Mas o cuidado com que me atendem é o mesmo. Simpatia. Delicadeza. Vontade de ajudar e sugerir outras hipóteses de compra. “Deseja um bom chá? Temos muitos. Deliciosos. Quer ver?” Ah! E a gente mesmo que tenha a caixa dos chás cheia, não pode sair sem mais um!
É lá que encontro uma panóplia de alimentos de óptima qualidade e alguns, quase raros, como os chícharos (lá, escrito com x's), prato de Inverno a não perder! É lá que estão as boas bolachinhas para o chá e bons queijos e boa charcutaria.
Fica um desejo, que nem o Vivaci, nem os Belmiros nem Companhia encharquem demasiado a cidade com super's de grandes superfícies que afoguem a MERCEARIA PENA.

29 de dezembro de 2008

Imagens de hoje

O Natal em Portugal não é só Pai Natal, árvores e compras.Imagens de Mogadouro, Bemposta e Bruçó:

28 de dezembro de 2008

O Menino Jesus na Gracieira


A Gracieira é a única localidade da região que comemora o Natal com a festa do Menino Jesus. Faz-se uma missa e uma pequena procissão. Não há qualquer resquício que nos permita relacionar esta festa com as festividades sosticiais do ciclo natalício. Porém, o Cancioneiro Popular Português atesta a relação da vinda ao mundo de Jesus Cristo, com o ciclo solar, trazendo luz aos Homens:

Ó infante suavíssimo,

Ó meu amado Jesus,

Vinde alumiar minha alma,

Vinde dar ao mundo luz

A localidade não tem ar festivo, nem sequer as ruas estão enfeitadas. Restam as celebrações religiosas, ligadas à igreja. Esta é a imagem que está no altar-mor e que não sai na procissão. Representa o Menino Salvador do Mundo, O Menino Rei.

Esta é a imgem que sai na procissão. Ela está menos vinculada à representação simbólica do poder.


26 de dezembro de 2008

O Inverno natural

"Dos Santos ao Natal é Inverno natural, bom é chover, melhor é nevar."
Comentário de uma mulher transmontana, ontem entrevistada por um jornalista que queria dramatizar a situação das estradas cheias de neve e o frio que se tem feito sentir: "Esta nevezinha faz cá muita falta. A terra não pode viver sem ela e a gente já está habituada." E pronto!

23 de dezembro de 2008

Mau augúrio...

Despedi-me com um "Bom Ano", da última visita à loja da fábrica Bordalo Pinheiro e obtive como resposta "isto está muito mal" com um triste olhar escondido no azáfama do embrulhar das prendas.
Logo a seguir veio a notícia, preto no branco, e sensacionalista: a fábrica do Zé Povinho vai fechar. Nem uma encomenda tem para Janeiro.
Foi nessa altura que comecei a pensar num recente acontecimento, passado com umas encomendas e que vou resumir, muito, mas mesmo muito resumidamente.
Uns amigos meus, que só conheceram esta loiça quando lhes ofereci uma peça de Bordalo, são, juntamente com a fábrica, os protagonistas. Diga-se que são ambos estrangeiros e que vivem há uns anos no Alentejo. Diga-se também que, de imediato procuraram na Net informação sobre esta fábrica, daí terem telefonado a pedir que lhes fizesse uma encomenda - simples e trivial. Isto passou-se em Junho/Julho de 2007. Em Setembro vieram cá e fizeram nova encomenda. Mais substancial. Cabeça de javali, lagostas, pratos ostra, taça ostra, santolas, etc, etc.
Passado um ano nenhuma das encomendas estava pronta. Diga-se que a minha passagem pela loja era constante. Acescente-se ainda que a funcionária já não sabia como calar a minha indignação. Muito gentilmente e de uma forma assaz subtil mostrava-me o livro de encomendas, dando-me a entender que eu não era uma excepção. Mas, queria eu lá saber dos outros. Eu queria era dar resposta aos meus amigos que perguntavam com insistência quando poderiam vir buscar as coisas.
Quando percebi que a encomenda só teria seguimento quando, por mero acaso, surgisse outra encomenda à qual valesse a pena responder porque substancial em número, referente à mesma peça (por exemplo, sei lá! 200 cabeças de javali...), aí sim, eu teria a sorte de ver a minha cabeça incluída (salvo seja!), fiquei de cabelos em pé e procurei instâncias superiores. Estavamos em Julho de 2008. Devido à minha insistência e quase súplica, foi-me prometido que a encomenda estaria pronta em tal data e, de facto, dias antes, recebi um telefonema a confirmar.
Dirigi-me à loja para confirmar in loco. Estavamos em Setembro de 2008.
Eles vieram no dia seguinte. Compraram o golfinho mitológico e ainda tiveram coragem para encomendar a enorme concha, tal como a que está à entrada do Casa-Museu. Mas não. Não era possível.
Desiludidos com esta impossibilidade, mas muito contentes com as peças que tinham adquirirdo, nem reclamaram por não lhes terem feito tudo o que haviam encomendado, tanto mais que fomos bem compensados pela disponibilidade da Elsa Rebelo que, competentissima e atenta, fez uma interessante visita ao Museu e forneceu imensas informações sobre as faianças.
No final, percebi que eles tinham a impressão que esta fábrica laborava na clandestinidade. Sendo algo de alta qualidade e tão interessante, porque razão não era dada a conhecer fora desta região? E mesmo aqui, quem não conhece, como pode descobrir que esta loja e esta relíquia existem?Em contrapartida, eles fizeram um trabalho de divulgação.
E eu, agora que ouvi o alarido das notícias, interrogo-me se não valerá a pena insistir com a encomenda da concha. E não posso deixar de pensar no livro de encomendas que vi na loja e que, deduzo eu, terá outras à espera que surja uma que lhes venha a calhar e as inclua. Ou... ficarão a ver navios?

21 de dezembro de 2008

O Natal já começou...

Para terminar as referências ao dia 13 de Dezembro, transcrevo um extracto do post do comendador Ermelindo Ávila, a quem presto homenagem e felicito pelos excelentes trabalhos que tem publicado e que tanto contribuem para melhor compreender a História dos Açores e, especialmente, da ilha do Pico.

" (...) E a 13 de Dezembro era o dia em que normalmente principiava o Natal, com o preparar dos pratinhos ou taças e a colocação neles do trigo a grelar, para estar crescido e viçoso quando se “armava” o altarzinho do Menino Jesus. Começava também a retirar das gavetas ou arcas as toalhas e, dos oratórios, as imagens do Menino para preparar, na véspera do grande dia, o seu trono. um pequeno altar. com dois ou três degraus, feitos de caixas de madeira ou cartão rijo, e coberto com lençol ou toalha branca".

Solstício - dias maiores

"Santa Luzia tira a noite e mete o dia"
é um refrão que, associado ao significado de Luzia - lux e lucis - festejada a 13 de Dezembro, e à proximidade do solstício, nos permite ligar o culto aos antigos festejos, em honra ao sol.
Santa Luzia é festejada precisamente doze dias antes do Natal - doze dias que correspondem aos 12 meses necessários ao trajecto do sol.

20 de dezembro de 2008

Coisa boa (I)


A Livraria Histórias com Bicho é um achado, é uma surpresa apetitosa é quase um desconcerto ao qual a íngreme estrada para os Casais Brancos (Óbidos) nos conduz. Era uma escola e agora é uma escola, mas diferente. Ela tem recreio, ela tem cadeiras, ela tem salas e até me parece que ainda tem um quadro preto. É uma escola por fora e por dentro. Por fora é uma escola do Estado Novo. Por dentro é uma escola em estado novo. Novíssimo. A gente entra e pasma. As paredes estão coloridas de pinturas e de livros que se podem ler com as mãos. Livros para crianças e para mais que crianças, para adultos e para mais que adultos. E a gente pasma mesmo a sério e olha para cima e para os lados e de tanta coisa linda ver, ainda pasma mais e pergunta a um qualquer deus, como é possível haver gente com tanta dedicação, com tanto gosto e com tanta imaginação.
Aos poucos vai saboreando esta COISA BOA, vai-lhe tomando o gosto e deixa-se cativar de tal maneira que nada o arranca do sofá onde se havia recostado a ver as estrelas pintadas no céu. E quando chega o lusco-fusco, quase já não há tempo para usufruir do recreio e dar balanço ao baloiço que nos faz esvoaçar pelos montes e vales dos Casais Brancos e da Navalha e quase chegar aos Casais da Capeleira.
É que está quase a chegar o Inverno. É já amanhã e a Livraria Histórias com Bicho dá-lhe as boas-vindas com um serão de contos ao frio. Sim, ao frio, debaixo do enorme e esplendoroso pinheiro do recreio. Cadeiras há 80, inscrições são 90! Eles bem avisam que já não têm cadeiras, mas as pessoas insistem e inscrevem-se com a condição de trazerem cadeira de casa, tal é o interesse por esta COISA BOA.

18 de dezembro de 2008

Sardões e Passarinhas

Às portas de Guimarães festejam-se a Senhora da Conceição e Santa luzia (8 e 13 de Dezembro, respectivamente). Os rapazes e raparigas ofereciam entre si, bolos com a forma de sardões e de passarinhas. Hoje ainda o fazem, por brincadeira, o que agrada às vendedeiras destes tradicionais doces que todos os anos aparecem com cestos coloridos com este belo chamariz de namorados.
Muito do que sei destas festas, devo-o a Angélica Lima Cruz que, pela priemira vez me falou da simbólica destes animais representados nestas oferendas, e a Alberto Lameiras que também partilhou comigo os seus conhecimentos.
Transcrevo um dos seus textos:
(...) A proximidade temporal destas duas romarias, (Nª Sr.ª da Conceição e Santa Luzia), e a sua localização num período de suspensão das actividades laborais, entenda-se, das grandes fainas agrícolas, propiciam o encontro, a troca de afectos, de mensagens, designadamente entre os jovens. Os doces de romarias são iguarias recorrentes nestas festas. A oferta de presentes, sob a forma de doces é um acto de significativa importância, sobretudo entre os jovens em idade de namoro. Oferecem-se doces com formas muito diversas: Dos vários doces que se encontram nestas romarias, os sardões e as passarinhas são os mais procurados. Moldados em farinha de cevada e com cobertura de açúcar, os doces, devidamente acondicionados em caixinhas algodoadas, ou muito simplesmente embrulhados em papel de jornal, conforme a sensibilidade... da carteira, constituíam um precioso presente gerador de muitas energias amorosas. Os rapazes, contam os mais idosos, oferecem doces às raparigas na festa da Senhora da Conceição – os «sardões». Na festa de Santa Luzia faz-se a retribuição da dádiva: as raparigas oferecem um presente equivalente – as «passarinhas». A escolha da forma destes presentes relaciona-se com as superstições e crenças populares sobre os animais: a serpente aparece como aliada das mulheres, e inimiga dos homens, atacando-os quando estão a dormir. O defensor do homem é o lagarto. No imaginário popular a identificação homem-lagarto e serpente-mulher vê-se reproduzida nas histórias de mouros (mouros em forma de lagartos e mouras em forma de serpentes) e na superstições (as mulheres de saias não devem passar por sítios onde estão lagartos porque estes sobem-lhe pelas pernas...).O excesso permitido, a transgressão, o paroxismo social de renovação e purificação, a alternância do tempo real quotidiano e o tempo intemporal são componentes recorrentes de todas as festividades e que nas romarias da Sra. da Conceição e Santa Luzia têm grande expressão.

17 de dezembro de 2008

Sagradas Mudanças

Santuários da Idade do Ferro (três ou quatro séculos a.C.) subjazem onde, ainda hoje, são venerados santos protectores contra as mesmas maleitas que já afectavam longínquos antepassados. É o caso em Garvão, onde o actual culto de Santa Luzia, praticado nas imediações, se sobrepõe ao templo de uma divindade desconhecida que há mais de dois mil anos, e neste mesmo local, também se dedicava ao tratamento de doenças de olhos. Aliás, a maioria das aldeias e alçarias do Baixo Alentejo ocupa o local de povoados pré-romanos e de época islâmica, onde o velho poço e as mesmas hortas continuam a ser utilizados. (…) Tentando desvendar não só o tipo de povoamento, como os hábitos alimentares e a topografia simbólica do sagrado, localizámos, isso sim, os principais santuários e lugares de peregrinação, com oragos masculinos pré-islâmicos, ligados à pastorícia. Curiosamente, estas autênticas divindades regionais, sem referência na hagiografia oficial católica, como São Brissos e São Barão, são sintomaticamente esquecidas e substituídas pelo culto mariano no decurso do século XV, quando estas terras são integradas nas estruturas fundiárias da Ordem de Santiago. Em vez de tropas beberes desmobilizadas, que uma certa historiografia insiste, hoje ainda, em instalar no nosso meio rural, fomos afinal encontrar camponeses e pastores, que tinham sido sempre camponeses e pastores, uma sociedade perfeitamente estabilizada que se manteve intacta quase até à época contemporânea e cujo equilíbrio, apenas nas ultimas dezenas de anos está a ser posto em perigo.
Cláudio Torres, História, camponeses e Parques Naturais, pg. 74 in FALAS A TERRA – Natureza e Ambiente na Tradição Popular Portuguesa, Edições Colibri, Lisboa, 2004.

16 de dezembro de 2008

A Fogo, o Sol e Luzia

À religião popular permite-se que evolua e se transforme com quem pula e avança. Este processo confere-lhe, a meu ver, uma característica de intimismo, que se reflecte na apropriação dos santos pelas comunidades locais.
Um exemplo: Na Usseira diz-se que a fogo que se acende de 12 para 13 celebra a heroicidade de Santa Luzia na defesa da sua virgindade, pois que, condenada à fogueira, fez-se tão pesada que ninguém a conseguiu para lá arrastar. Tiveram de recorrer a uma junta de bois que, com grande dificuldade, a atirou para as chamas que foram incapazes de a consumir e por isso mesmo, foi sujeita à morte pela espada. Recordando a virgem e mártir, a Usseira ergue, em sua honra, uma fogueira.
Porém, já há milhares de anos o fogo era um ritual presente nos festejos ao Sol. Fazia-se, ora agradecendo o seu retorno, ora receando que ele não voltasse. O fogo era o elemento que, na Terra, reproduzia algo que mais se assemelhava ao Sol: luz e calor.Sol e fogo, pelas suas características, pelo seu poder e pelo bem (ou mal) que poderiam trazer ao Homem, foram sendo associados às divindades.
Mas a interpretação dos Usseirenses, em nada abala a sua fé e em nada contribui para macular a festa. É à volta da fogueira que se come, bebe, convive e reforça os laços de vizinhança - ingredientes que dáo luz e calor á vida das comunidades.

Santa Luzia na Usseira (Óbidos)

Na noite de 12 para 13 de Dezembro há boda em frente à capela de Santa Luzia, na Usseira, freguesia do concelho de Óbidos, bastante mais conhecida pela produção de fruta, do que pelas suas festas e tradições. Mas os festejos a Santa Luzia são singulares e únicos nas redondezas. Nesta época, acrescente-se. Porque em Setembro é o Pinhal que oferece a célebre "batatada" e em Janeiro é no Santo Antão que se comem os primeiros chouriços do ano.
Quem passa em frente à capelinha não se aperceberá que foi propositadamente deixado um círculo térreo, enquanto todo o espaço envolvente, está coberto de alcatrão. É aí que se faz a fogueira à volta da qual os habitantes da Usseira convivem, enquanto usufruem de uma ceia de carne grelhada, sardinha assada, pão e vinho, sem qualquer gasto. É o bodo da Usseira, em honra de Santa Luzia, que no dia seguinte é homenageada com uma missa e um sermão que relembra a sua vida de virgem e mártir.
A Usseira reune, nestes festejos, diferentes vertentes de uma tradição que assimila o descanso da terra à disponibilidade dos homens para a festa, cumulativamente aos festejos do Solstício de Inverno, dos quais, na tradição cristã, Santa Luzia, protectora dos olhos, é um baluarte.

14 de dezembro de 2008

Saturnais, Solstício e Festa

As ruas da cidade estão semeadas de árvores de Natal, os cidadãos correm de loja em loja, enchem as pastelarias com pedidos de bolo-rei, atarefam-se na compra de musgo, azevinho e outras ramagens verdes e vermelhas, vestem-se de Pai Natal, antecipando o Carnaval e todos, todos nós, nos sujeitamos ao entoar permanente de anjinhos esvoaçando melodias natalícias que os nosso ouvidos não podem espantar para mais longe porque a oferta é democrática: para todos igualmente!
Já na Carta 18, de Cartas a Lucílio, Séneca aludia aos excessos dos festejos:"Estamos em Dezembro: a cidade está coberta de suor! A ostentação desregrada invadiu toda a vida colectiva. Fazem-se estrepitosamente enormes preparativos, como se existisse alguma diferença entre o período das Saturnais e os dias úteis. O facto é que não há qualquer diferença, e por isso mesmo acho que tem toda a razão quem afirma que se Dezembro em tempos foi um mês, agora é um ano inteiro".

O frenesim, mantem-se, 2000 anos passados e a ostentação desregrada de que fala Séneca continua visível, mesmo em tempos de proclamada crise. Afinal de contas, festa é festa, não é assim?
Séneca, Cartas a Lucílio, Tradução de J.A. Segurado Campos, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991.
Agradeço esta dica à Senhora Sócrates: