21 de abril de 2009

Memória afectiva das salinas do Arelho

Começou a trabalhar nas salinas do Arelho aos 11 anos,
em 1944. Tornou-se dona das salinas até 1969, ano em que emigrou, ano em que as salinas ficaram definitivamente desactivadas.
Faz hoje 76 anos.

19 de abril de 2009

Roubar Figos é coisa santa

Quando Abril começava a despontar e, se o sol fosse generoso, iniciava-se a limpeza dos canteiros, no braço da Lagoa que se estende até quase ao Arelho. A lama arrastada pelas marés e pelas chuvas era retirada pelo valador e depois levada para os terrenos contíguos, pelas mulheres, para se dar início à tarefa da apanha do sal.
Era um trabalho que demorava cerca de um mês, com mais de uma dezena de mulheres a correrem pelas valas, como formiguinhas, de gamelas à cabeça.
Era assim, na Lagoa de Óbidos, desde o nascimento das salinas, em 1930, até 1969, ano em que ficaram desactivadas.
Felícia, hoje com 83 anos, filha de pais abastados, donos de terrenos e de animais, nunca trabalhou nas salinas, que era sítio para filhas de gente de menos posses. Mas trabalhou, e a sério, nos campos, a sachar e a mondar. Calcorreou bons quilómetros, para levar o jantar aos homens que trabalhavam à jorna. Ia, de madrugada, vender para a praça das Caldas. Regressava, a horas tardias, sem comer e, por vezes, montada no macho, a abrir caminho ao pai, não fosse aparecer a ladroagem e ficar com o dinheiro da venda.
Nunca trabalhou nas salinas mas lembra-se muito bem de se regalar com a paisagem , por isso, quando o pai lhe dava ordem para ir trabalhar para um terreno que proporcionava essa vista, até agradecia. Porém, na sua mente havia sempre um mistério indecifrável. "Este estafermo da figueira, meu pai - dizia ela - vale mais arrancar-se. Nunca dá figos! Ainda por cima também nunca se lhe vê flor! Nunca cumpre a obrigação de dar fruto! Isto é coisa que até assusta. Parece obra do diabo."
Dizia-se, e ainda hoje se acredita, mas talvez Felícia não soubesse, que a figueira é uma árvore amaldiçoada e tão nefasta que seca o leite às mulheres que por ela passam.
Dizem que este castigo foi dado à figueira porque Judas se enforcou numa e, apesar de se saber que não é bem assim, continua a propagar-se a crença porque torna a coisa mais mágica, mais vibrante, mais interessante.
Os jovens já vêm com a verdade da escola: "as flores não se vêem, porque estão fechadas dentro de um receptáculo chamado sícone, que é o figo", mas às mães e às avós nem sempre dá jeito acreditar nestas verdades irrefutáveis e continuam a olhar para a figueira como a árvore que é tão má que até faz rebentar os lábios a quem come figos perto dela.
Seja como for, o que interessa para o caso é que Piedade, ela sim, trabalhadora nas salinas durante trinta e seis anos, muito tempo passado, desvendou o segredo da aparente infertilidade das figueiras.
As rapariguitas salineiras andavam sempre com o olho nos figos da figueira de Felícia. Os que se destacavam, os mais maduros não ficavam lá muito tempo. Às escondidas, davam lá um pulo e iam-nos colhendo, ao que se pode literalmente dizer que lhes chamavam um figo. Elas acreditavam no que se dizia, que a figueira é árvore tão ruim que nem pecado era roubar-lhe os figos.
Era, então, uma santa acção, esta de retirar os figos à árvore amaldiçoada. Matava-lhes a fome em horas de faina apertada e dura.
Estória escrita depois de uma tarde de conversa no Centro de Melhor Idade do Arelho.
Felícia tem hoje 83 anos e Piedade, 76 anos.
Os nomes são fictícios.

18 de abril de 2009

A propósito de adivinhas e de ovos

Que é que é
uma caixinha
redondinha
bem feita para rebolar?
Todos a podem abrir
ninguém a pode fechar...
A propósito de ovos e de adivinhas, Ana Paula Guimarães acrescenta, em CUIDAR DA CRIAÇÃO: ¨A adivinha parece, além do mais, funcionar como uma espécie de ovo cósmico da linguagem. Ovo cósmico é uma expressão usada pelo astrónomo belga Georges Lemaître (1894-1967) para designar o conjunto de matéria altamente compacto que teria dado origem ao Universo, átomo primordial. (...)
Na língua portuguesa, especula Cecília Diógenes, empenhada neste estudo do ovo na tradição popular e na publicidade, a palavra ovo é capicua, simétrica e circular. Constitui o princípio e o fim, dá origem a uma nova vida - partindo-se, reconstrói a geração.¨
O ovo não podia deixar de ser o símbolo por excelência da homenagem à Primavera. Não podria, pois, estar fora dos festejos que anunciam a transicção de uma estação do ano a outra.
O que parece estranho é a associação dos coelhinhos aos ovos, na época pascal.
Mas, para esclarecimento veja-se COCANHA.

16 de abril de 2009

De um amigo croata, recebi estes ovos de Páscoa, fotografados, em Zagreb, na Praça Vice-Rei Josip Jelacic.
Este ano o Turismo de Zagreb presenteou os habitantes da cidade e os veraneantes com este ovo pintado, segundo a tradição croata. Pisanica é o termo que designa estes ovos e significa "ovo cozido pintado". Agradeço, pois, estas informações que contribuem para estabelecer laços entre as raízes comuns da tradição europeia.










12 de abril de 2009

O ovo europeu

Poucos se lembrarão dos jogos de descoberta de ovos escondidos nos campos, que faziam na época de Páscoa, como este, da região de Mafra.
Os ovos continuam a fazer parte da simbologia pascal, mas agora em chocolate, ou cozidos e incrustados no folar. O chocolate só veio dar uma nova forma a um costume que vem de longe. O ovo era associado a lendas e mitos sobre a criação do universo, não só porque ele é a semente que contem o gérmen vital, mas também devido à sua forma, redonda, sem princípio nem fim. E a gema era associada ao sol, também ele fonte de vida. Ligado tão intimamente à vida, à regeneração, ao renascimento, ao vigor e, naturalmente, à Primavera, o ovo tornou-se num símbolo da Páscoa, em toda a Europa.
Na Europa Central, Ucrânia, República Checa, Hungria, Roménia e Croácia - os ovos são pintados e decorados, com signos e símbolos pascais ou primaveris.
Na Europa do Sul a decoração não é essencial ao rito. Eles aparecem muitas vezes só pintados de vermelho, em algumas ilhas da Grécia, como Rodes e Karpatos.
Em Portugal e na região mediterrânica fazem-se bolos onde se incrustam ovos inteiros cozidos com a casca. Em Portugal chamam-se folares, Campanile, na Corsega; Tsoureki, na Grécia;
La rosca de Pascua, na Calábria ou Muccelati e cannilieri. Estes bolos aparecem sob as mais diversas formas: corações, cavalos, vacas, peixes, porcos-espinhos, aves, águias e serpentes bicéfalas.
Serão estas diferentes representações apenas obra da fantasia e da imaginação?
A recorrência dos mesmos temas em diferentes partes da Europa faz com que duvidemos da simplicidade da resposta.
A serpente mítica da Sicília, por exemplo, encontra-se sob forma de escorpião na Calábria ou na Sardenha, e de lagarto, em Portugal e em Espanha, de dinossauro em Creta e de dragão na ilha de Karpatos. Como se, com a chegada da Primavera, todos estes seres arcaicos, saíssem do ventre da terra para figurar, de forma mais ou menos adocicada, a regeneração e a fecundidade.
As aves, nomeadamente, a pomba que também se vê aquando da Anunciação e do Pentecostes, são, evidentemente, os animais mais tolerados pela Igreja. E são também os mais frequentes. Por vezes a ave tem no bico um ramo de oliveira.
Em certos sítios, na quinta-feira santa, os rapazes recebiam um pássaro, um cavalo ou um dragão e as meninas recebiam uma boneca, em massa de pão, todos eles contendo um ovo. Mas estes meninos não podem comer os bolos, senão no dia de Páscoa. Na Grécia, levam-nos à igreja, no sábado santo, para os benzer… antes de serem comidas.
Em Portugal, poucas localidades mantêm o hábito de fazer folares em forma de animal. Castelo de Vide é um exemplo onde o costume se mantém.

9 de abril de 2009

Mãos de Tesoura

Até há pouco tempo, Mãos de Tesoura, soava a Eduardo e remetia para este grafite.


Entretanto, passou a designar uma loja cheia de imaginação e cor, sita na Rua da Cova da Onça, de seu nome
MÃOS DE TESOURA.



3 de abril de 2009

Renato

Foto de Margarida

27 de Fevereiro de 2009

2 de abril de 2009

Vidas d'aqui - 3

Vindo do Barreiro, onde nasceu, Renato chegou às Caldas em 1957, com 22 anos, já casado e com uma filha de três.
De imediato procurou alguém com quem se pudesse entender, alguém com quem pudesse falar sem muitos receios, mesmo que em surdina. Começou pelo Café Central. Entrou. Entrou várias vezes. Sempre lendo no olhar e nos gestos de cada um. O que leriam? E as conversas, de que falariam?
Por portas travessas indicaram-lhe um contacto a não perder: O Dr. Custódio, um democrata. Foi assim que se iniciou nos contactos com gente de esquerda. E foi assim, penso eu, que foi conhecendo gente do PC.
As suas raízes estão no Barreiro, onde já tinha palmilhado muito caminho, apesar dos seus apenas 22 anos. Aos oito, em 1943, entraram-lhe pela casa adentro e levaram-lhe o pai. Tornou-se, então “ladrão e pai de família”, como dizia. O mesmo aconteceu com outros miúdos que ficaram sem pai, sem tios, sem primos e sem irmãos. As mulheres, diz ele, choraram durante toda a noite e num raio de 15 quilómetros era uma escuridão de carpideiras.
Por isso, aos 22 anos, já tinha passado por uma grande escola de vida e de violência. Diz ele que foi o Salazar que lhe entrou no quarto ou melhor, na sala, onde dormia com a avó. No dia seguinte era o único homem da casa. Assim se tornou chefe de família. E ladrão? Sim. Roubava-se o que se podia, para comer e para aligeirar as despesas e o fardo que a mãe, a tia e a avó tinham de transportar.
Por isso, Caldas era a continuação dessa aprendizagem.
A cidade parecia-lhe uma coisa minúscula, com uma população igual a quarto dos trabalhadores que entravam na CUF.
A colocação de um comutador na fábrica da SECLA, tarefa que lhe foi confiada, deu-lhe acesso aos artistas locais e a ceramistas como o Ferreira da Silva e outros. Foi assim que entrou para o CCC e que, juntamente com tanta gente interessante, o dinamizou.

Caldas da Rainha, 27 Fevereiro 2009
Ontem, 1 de Abril, morreu de pé, nas Caldas da Rainha.

27 de março de 2009

Amigos de Peniche 3

A fatídica expressão "amigos de peniche" faz com que toda a gente evite apresentar um amigo penichense, como um amigo de Peniche. Normalmente, seguem-se explicações "ele é de Peniche mas não é um amigo de Peniche", etc, etc.

Mas temos uma resposta interessante de um médico penichense, a um colega seu que o picou, com uma pontinha de ironia, sobre o significado dessa expressão: "Olhe, meu caro, «amigos de Peniche» são uma cáfila de patifes que eu tenho encontrado por toda aparte, menos lá!..." (in Peniche na História e na Lenda de Mariano Calado, p.426).

26 de março de 2009

Amigos de Peniche 2

Em breve fará 420 anos que a armada inglesa desembarcou em Peniche, supostamente com a intenção de ajudar a defender o direito de D. António, Prior do Crato, à sucessão do reino, após a morte de D. Henrique. Porém, o desejo dos adeptos de D. António foram gorados pelo facto deste exército nunca ter desempenhado a função para a qual estava designado. Foi assim, segundo conta Mariano Calado em Peniche, na História e na Lenda, que surgiu a fatídica frase que assombra a hospitalidade e a honestidade do povo de Peniche.
Em Lisboa, os defensores de D. António, ansiando pela chegada do exército que deveria apoiá-los, comentavam: Então e os nossos amigos de Peniche, quando chegam? Os nossos amigos de Peniche por onde andam? Porque não vêm os nossos amigos de Peniche?
Quem os pode livrar de uma sentença imposta há quase meio milénio, mas que nada tinha a ver com os naturais de Peniche?
Ai! estes ingleses trazem cada trauma!

25 de março de 2009

24 de março de 2009

ESSES de Peniche

Cada terra com o seu uso, cada roca com o seu fuso.

Um dos doces característicos de Peniche são uns biscoitos em forma de esses. Adquiria-os nas pastelarias mas hoje foi-me desvendado um cantinho chamado BOINA VERDE, situado numa das ruas estreitinhas que ladeiam a Câmara (só de peões), que os tem deliciosos e fresquinhos.Outras iguarias, como os pastéis de Peniche, e as queijadas também aí são confeccionadas.
Parabéns a esta diligente senhora que se rendeu à qualidade, em vez de se deixar seduzir pela avidez do lucro fácil tão usual na venda de gato por lebre.

23 de março de 2009

Andorinhas nas Caldas

As andorinhas chegaram no dia de aniversário do Bordalo, dia em que o Museu Bernardo o homenageou através do olhar de novos artistas.





22 de março de 2009

Homenagem aos trabalhadores da Bordalo Pinheiro

Elas já se haviam anunciado, quando as expuseram, todas juntinhas, a fingir que esvoaçavam parede acima, na Galeria OGIVA, em Óbidos.
Pareciam trazer um tempo novo, mas como o espaço não as deixava levantar voo, só esvoaçaram as que não estavam presas à parede.
Foram e espalharam a notícia da Bordalo Pinheiro.
A loja da fábrica encheu-se de gente ávida de ter, ter, ter e ter um prato, uma peça, um azulejo, fosse o que fosse, mas o importante é que fosse Bordalo.
A estratégia funcionou, dizem. Mas afinal não foi suficiente e anteontem, por volta das 11h44m, as ruas das Caldas encheram-se de andorinhas brancas que traziam esta mensagem: Homenagem aos trabalhadores da Bordalo Pinheiro.
Elas ainda por aqui andam. Muitas ficaram coladinhas nos umbrais das portas. Outras meteram-se em pequeníssimos envelopes abertos de um lado e colados nas paredes, para que o transeunte atento retire um, leia e se associe a tão bela manifestação de solidariedade.
O promotor é um "autor desconhecido". A ideia é genial.
O papel branco que cada um pode levar para casa, a mim, cheira-me a trabalho de artista plástico. Parece-me ter vindo dos lados da ESAD, mas isto é só "um suponhamos".
Respeito o anonimato, mas não posso deixar de alertar para olharem para as paredes, para as portas, para as janelas e para os bancos da cidade.
Elas andam por aí! E os artistas plásticos também.
(Foto de Nelson Melo)

21 de março de 2009

Vidas d'aqui - 2

Rendizer a poesia

Encontrámo-nos no seu atelier.
Não sei descrevê-lo como gostaria porque ela é que me prendeu a atenção. Tenho na memória quadros, muitos, suspensos nas paredes. Eram retratos de ruas, de homens de Peniche, do porto, de flores, de recantos, de mar, de gaivotas e dois de rendas. Num, estavam as suas mãos a rendilhar sobre a almofada coberta de bilros e de renda. Outro era um naperon pormenorizadamente pintado, juntamente com uns búzios.
Havia tintas, pincéis, livros, poemas e uma almofada de bilros, em execução.
Havia também rendas encaixilhadas. Uma árvore, a cores, com extensas raízes. Uma caravela. E mais, muitos mais trabalhos, mas não recordo muito mais porque ela é que me prendeu a atenção.
Disponível. Evitou atender pessoas e telefones. Falou de rendas, de rendilheiras, do trique-trique dos bilros e da sua aprendizagem, desde os seis anos de idade.
Conheceu as amarguras das mulheres de Peniche que, em algumas épocas do ano, sustentavam marido e filhos, à custa de noites e dias debruçadas sobre a almofada, sentadas no chão.
Conheceu as oficinas e as escolas de sujeição à disciplina rígida quais as crianças estavam sujeitas.
Tornou-se mestra. Ensinou muitas mulheres e hoje é um dos sustentáculos desta produção artística, pela forma como se envolve na sua manutenção, defesa e inovação.
Ontem enviou-me uma renda e uma poesia, ambas da sua autoria porque “a nossa renda de bilros é também poesia”.
E eu agradeço, divulgando e agradecendo quanto tenho aprendido sobre Peniche e o ensino das rendas.
Meu coração bate, bate
como os bilros da almofada
e ao som do tric …tric
nasce em minha alma a alvorada.
brilham tanto os alfinetes
sobre o pique de açafrão,
que os seus pontos transparentes,
são nuvens de encantamento
que me enchem de emoção.

os bilros,
passarinhos esvoaçantes
deixam música no ar
em sons leves
sussurrantes,
aos ouvidos do luar.

Quem vê a renda surgir
tecida de leves fios
entrecruzados de esperança,
de marés vivas,
de sonhos,

de ondas brancas de espuma,
de sorrisos de crianças
embalados na maresia,
sobre o pique, na almofada,
verá por certo,
à tardinha
que, por milagre ou magia,
a renda de espuma branca
já não é renda,
“é poesia”
IDA GUILHERME

20 de março de 2009

Sagração da Primavera

Imagem retirada daqui

A Primavera é recebida hoje, às 11h44m, com uma Festa do Equinócio, no recinto amuralhado do Santuário Rupestre da Pedra da Cabeleira de Nossa Senhora, em Vila Nova de Foz Côa.

17 de março de 2009

Quase no Equinócio da Primavera

Quase no equinócio da Primavera, a Irlanda festeja hoje S. Patrício, o santo que este país adoptou como patrono e ao qual dedica o seu feriado nacional. Diz-se que foi ele que introduziu o cristianismo na Irlanda e destruíu o paganismo. Diz a lenda que ele conseguiu acabar com todas as serpentes existentes no reino, animal conotado com cultos pagãos.
Os irlandeses vestem-se de verde, promovem desfiles carnavalescos, comem carne de vaca e usam um trevo na lapela, neste dia. Não só em Dublin, mas também na Escócia, França, Espanha, Canadá, USA e em qualquer outra parte onde a comunidade seja significativa (http://www.nuitdelasaintpatrick.com/2007)

Mas, passando por cima destas manifestações exteriores, atentemos, na exuberância do uso do verde e, no facto de S. Patrício, segundo a hagiologia oficial, ter vivido numa gruta (ou buraco), na ilha de Derg, como se este sítio fosse um acesso ao Purgatório,segundo a crença cristã, ou ao mundo do Além, que, segundo os Celtas era um mundo misterioso de fadas.
S. Patricio é festejado em periodo pascal e associado a um outro mundo mítico - evidentes semelhanças com Cristo que procede à passagem da vida à morte e da morte à vida. Ele desce aos infernos
e dá aos homens a esperança de vida eterna.

Festa de Primavera, festa do equinócio e festa lunar, a Páscoa está intimamente ligada ao mito sazonal com diferentes significados sobrepostos, simbolicamente associada a "passagem". Na realidade esta festa é a passagem de uma estação a outra - do Inverno à Primavera.
Dá-se a ressurreição da Natureza. Dá-se também a ressurreição de Cristo.

S. Patrício não é festejado em Portugal, por isso, não conheço qualquer provérbio que lhe faça referência, mas em França existem, pelo menos, estes dois:
"Quand il fait doux à la Saint Patrice de leurs trous sortent les écrevisses"
"Sème des pois à la Saint Patrice tu en auras à ton caprice".

16 de março de 2009

Vidas d'aqui - 1

Há muito o via por Óbidos, sempre activo e atarefado, até que, chegou o momento de nos encontrarmos e falarmos.
Teve uma infância e uma adolescência riquíssimas de vivências e experiências.

Acompanhou os serradores que durante meses a fio cortaram os pinheiros do Bom Sucesso, que seguiam para Inglaterra, onde faziam deles, postes de comunicação.
Foi assim, muito novo, enquanto acompanhava o pai, que aprendeu a ler a idade, o peso e a medida das árvores.
Pescou à sertela e à fisga, na Lagoa de Óbidos.
Conheceu os caminhos de água que lhe ligavam as margens.
Conviveu com o Dr. Fernando Correia, um ilustre médico que escreveu sobre as Caldas, o Hospital e a Rainha D. Leonor. Com ele revia as provas dos seus livros antes de irem para a tipografia.
Conviveu com a criadora dos bordados de Óbidos.
Conheceu regatos e fontes de água límpida.
Conheceu os pássaros pelo chilrear.
Sabe descrever, com tanto realismo, como fazia miocadas, um isco feito com minhocas, que, mesmo quem nunca as tivesse visto, consegue imaginar como seriam.
Sabe jogos populares e regras.
Sabe fazer tapume e adobe.
Conheceu as salinas e os melhores valadores.
Conheceu os caminhos rurais, as feiras, os negócios, os hábitos, enfim… contou-me experiências e saberes que, mais uma vez, me alertaram para a importância de registar e guardar o que, inexoravelmente, se vai perdendo, e que faz parte de nós, do nosso património e da história do quotidiano.

Brevemente a MEMORIAMEDIA (e-Museu de Património Imaterial) virá registar tudo isto, com ele e outros companheiros seus.

http://www.memoriamedia.net/

24 de fevereiro de 2009

Carnaval

Cardadores - Vale d'Ílhavo - Foto de Afonso Alves
Os corsos carnavalescos são, segundo as televisões, a forma mais mediática de festejar o Carnaval. Ovar, Sesimbra, Mealhada, Loulé e Torres Vedras aparecem em todos os canais. Estas manifestações vão proliferando nas capitais de distrito que convidam as associações concelhias e os diferentes bairros para desfilarem, mas também em pequenas localidades, como, aqui tão perto, nas Gaeiras.
Potentes altifalantes vomitando música foleira transformam as cidades em espaços de onde só apetece fugir, mas as pequenas localidades não lhe ficam atrás. Hoje, Vale d’Ílhavo, por exemplo, abafou por completo o som das cardas dos cardadores e impedia qualquer diálogo entre os presentes, de tal forma o ruído musical era forte e estridente.
Nestes cortejos, o que é mais marcante é a crítica social e política e o desfile dos reis e rainhas, eleitos, designados ou, pura e simplesmente contratados e normalmente bem pagos para desfilar semi-desnudados, o que contribui para atrair multidões.
Esta prática é uma inversão total das raízes onde se inserem as tradições carnavalescas, o que me nada contribui para lhes retirar o brilhantismo que os responsáveis lhes querem dar.
Antigamente era eleito um bode-expiatório que assumia as culpas dos cidadãos e que, nesta época era escorraçado da cidade, libertando-a assim, de todas as faltas cometidas e restituindo-lhe o estado puro de que os cidadãos precisavam para continuar a viver. Na antiga Grécia o bode-expiatório, escolhido entre um mendigo, um prisioneiro ou um deficiente, era coberto de roupas solenes e percorria toda a cidade, para acarretar consigo todos os males e doenças. Se ainda há resquícios destas práticas entre nós, como a serração da velha, a queima do Judas, os testamentos e os roubos rituais, que se fazem em época carnavalesca, a eleição dos reis e das rainhas, não passa de outros tantos resquícios dessas práticas, mas agora, invertidas. Dá-se-lhes lugar de prestígio e honra, em vez de os escorraçar.

Assistimos também a uma prática recente que se generaliza. As escolas organizam os desfiles pelas vilas e cidades, institucionalizando o que antes era espontâneo. Mas também isso não tem importância nenhuma para a compreensão do carnaval e para a sua manutenção.

É importante frisar que nenhuma festa é imutável mas também nenhuma obedece a uma lógica cartesiana. Elas variam, modificam-se, adaptam-se e organizam-se diferentemente, segundo o tempo e o lugar.
As festividades hoje contêm memórias das crenças e de hábitos que lhes deram origem e que estão essencialmente ligadas à agricultura e à relação do Homem com a Natureza, mas, por vezes, transformam-lhes o sentido e elas passam a conservar apenas o aspecto plástico, sem o seu significado. É o que acontece hoje, com muita frequência.
Vem no decorrer desta perca de sentido, o uso do báculo com o sol e com a lua. O rei das Gaeiras apoiava-se num símbolo solar e a rainha, num lunar.
Aí temos os marcadores do dia e da noite e o desejo de ver aparecer, nesta altura, a luz que propiciará as sementeiras. No entanto, o seu sentido desapareceu.
Registe-se, no entanto, a sua presença.

14 de fevereiro de 2009

S. Valentim

A 14 de Fevereiro comemora-se, não um, mas cinco santos que têm em comum o facto de se apelidarem Valentim. Só a um deles é atribuída a faculdade de ter escrito cartas de amor e, por conseguinte, é graças a ele que o comércio se enche de corações inflamados, que aos restaurantes afluem pares amorosos e que as floristas esgotam os stocks das mais belas rosas.
O S. Valentim, que repousa em Madrid, na Igreja de Santo António, cuja eloquência cupidiana terá seduzido os jovens apaixonados, é que reclama ser o “patrón de los enamorados” , conforme atesta o seu túmulo, onde se exibe a sua caveira.
Ora, não será por acaso que a caveira se torna o elemento mais ostentatório, pois sabe-se que tanto este mártir como todos os outros foram decapitados, tal como acontecia aos deuses que na Primavera eram decapitados, para em seguida ressuscitarem, como a natureza que floresce e renasce.
Inserir o culto a este santo em rituais de transição entre o Inverno e a Primavera é algo que se ajusta à compreensão da existência de um mito, que os rituais ainda sustentam.
A festa a S. Valentim tornou-se, hoje, numa festa urbana , alheia a qualquer iniciativa da igreja católica e mesmo à margem do meio rural. Porém, não será demais relembrar as práticas de enamoramento que ainda persistem como o dia das amigas (ou dos amigos), os acordos de parentesco, por exemplo de madrinhas e padrinhos, ou os contratos temporários de acasalamento, através dos “ganchos”.
“Queres ser meu gancho?”
E então, rapaz e rapariga, faziam um elo, uma argola, um gancho, como o dedo indicador das suas mãos direitas, enfiando um no outro, para selar o contrato . Mais tarde procedia-se ao ritual da troca de prendas.
No fim de contas, o importante é a ruptura temporal a que estes rituais obrigam, propiciando o encontro, o convívio e, porque não? Dando um ar mais florido e alegre às vilas, às cidades e até às nossas casas.

(texto ligeiramente adaptado do publicado no DN a 7 de Fevereiro)

Dia dos namorados

BELA D­ ‘AMOR

Pois essa luz cintilante

Que brilha no teu semblante
Donde lhe vem o splendor?
Não sentes no peito a chama
Que aos meus suspiros se inflama
E toda reluz de amor?

Pois a celeste fragrância
Que te sentes exalar,
Pois, dize a ingénua elegância
Com que te vês ondular
Como se baloiça a flor
Na primavera em verdor,
Dize, dize: a natureza
Pode dar tal gentileza?
Quem ta deu senão amor?

Vê-te a esse espelho, querida,
Ai vê-te por tua vida,
E diz se há no céu estrela,
Diz-me se há no prado flor
Que Deus fizesse tão bela
Como te faz meu amor.

ALMEIDA GARRETT

13 de fevereiro de 2009

Sexta-feira, treze

O número 13 deu que fazer à imprensa, às rádios e às televisões. Movimentaram-se todos para arranjar explicações para este dia azarento.
Procuraram rituais que alimentam a superstição, dando, assim, continuidade ao mito e incentivando o aparecimento de outros.
Não falaram no 12, nem no sábado. Ora o 13 azarento não existiria se o 12 não fosse visto como um número perfeito e a sexta azarenta, não existiria se não abrisse a porta para o Sabat.

9 de fevereiro de 2009

Os Gaidufa

Foto de Maximino Alves Martins
Ora se antigamente o gaiteiro acordava a aldeia, pela festa de Santo André, no Arelho, o que é que nos impede de voltar a ouvir o som da gaita de foles, logo pela manhã?, pensou Maximino.
O tocador que vinha dos lados de Torres Vedras já terá desaparecido, mas com um pouco de entusiasmo consegue-se cativar algum dos músicos das bandas. E conseguiu, em A-da-Gorda. Contratou o mestre e músico bem conhecido na zona, o Quitó. Deu-lhes o nome de GAIDUFA - Gaiteiros da União Filarmónica de A-da-Gorda e eles aí estão. Já actuaram na festa de Santo André e actuam sempre no Mercado Medieval. São três, a conta que Deus fez, dizem alguns, para darem um final feliz a uma boa e bem sucedida iniciativa.

S. Brás, em Montes, Trancoso

As mocas dos homens

"Homem que é homem – segundo ditos de outros tempos - tem de entrar com uma moca ao ombro, fosse ela grande ou pequena..."in Notícias de Vila Real, Fevereiro, 2007.
Fotos cedidas por RIBEIRO AIRES, a quem agradeço a gentileza.

5 de fevereiro de 2009

A sereia e a gancha do macaco

Dá cá o pito; toma lá a gancha
É um tema bem glosado aqui:
http://cocanha.blogspot.com/2008/01/dar-o-pito-para-receber-gancha.html
Agradeço a Zazie a oportuna observação.

S. Brás em Trancoso e no Brasil


S. Brás festeja-se numa pequena aldeia do concelho de Trancoso, Montes, tal como na Nazaré. Como refere o Notícias de Vila Real: "Homem que é homem – segundo ditos de outros tempos - tem de entrar com uma moca ao ombro, fosse ela grande ou pequena, preparada em casa ou arrancada no monte, ali à entrada do recinto, não fosse o diabo tecê-las, como noutros tempos, às vezes, acontecia, por «tralhas ou por malhas». Em Vila Real, substitui-se a moca por uma gancha, mas ambas vão dar ao mesmo: rituais de enamoramento e sedução, com a presença de símbolos fálicos.
Curioso é ver que no mesmo dia, na localidade de Trancoso, Bahia, Brasil, se festeja o mesmo santo e, note-se, com uma missa onde se benzem as gargantas.

4 de fevereiro de 2009

Ganchas de S. Brás

Ganchas de S. Brás é um chupa-chupa em forma de gancho que se vende na romaria de S. Brás, em Vila Real. Chupa-se este interessante doce que uns dizem ser a iconização do báculo de S. Brás, outros qcham que é um apetrecho para desentupir a garganta... já que S. Brás é o orago da garganta.

Mas este doce é também um presente que as moças oferecem aos moços que pela Santa Luzia lhes ofereceram os pitos. É um ritual de trocas que se inicia pela Santa Luzia, a 13 de Dezembro, e que agora se dá por concluido, precisamente quando termina o ciclo natalíco e começa o carnavalesco.

Rapazes e raparigas divertem-se com as ganchas, arrebitando-as para baixo ou para cima, conforme a intenção que preside à brincadeira.

Associado a este ritual há o facto de se cantarem umas quadras que condizem com estes gestos de sedução mútua:
Eu vou ao S. Brás
De cu para trás
Comprar uma gancha
pr'ó meu rapaz
Eu vou ao S. Brás
de cu para a frente
Comprar uma gancha
Pr'á minha gente

Eu vou ao S. Brás
De cu para o lado
Comprar uma gancha
Pr'ó meu namorado
(Foto retirada de um desdobravel distribuido pela Região de Turismo da Serra do Marão, da autoria de Juvenal Cardápio)

3 de fevereiro de 2009

Gargantua e S. Brás

Quis Rabelais que o seu gigante Gargantua nascesse no mesmo dia em que se celebra S. Brás.
A garganta de que S. Brás é protector ou a garganta de Gargantua é simultaneamente o lugar da palavra, o lugar da absorção dos alimentos, o lugar por onde circula o sopro vital e também o elemento que nos renvia ao lobo divino, ao homem-lobo que governa os ciclos do Tempo e as liturgias sagradas de Carnaval.
Não é por acaso que Rabelais fez vir à luz deste dia o seu Gargantua que, sem dúvida, está inscrito na tradição carnavalesca.

E não vos melindreis, ó vós que ledes,
Que nenhum mal contém, nem perversão.
É verdade que pouca perfeição
Salvo no riso, aqui podeis obter:
Outra coisa não posso oferecer,
Ao ver as aflições que nos consomem;
Antes risos que prantos descrever,
Sendo certo que rir é próprio do homem.
VIVEI ALEGRES.
3 (Rabelais, 1986 p. 39)

Carnaval da Nazaré

No dia de S. Brás, olha o Inverno que faz. Se está para a frente ou se está para trás.

S. Brás é festejado no campo, preferencialmente em bosques e pinhais, dado que ele é protector dos pastores, Senhor das chuvas e das águas, mas também preside às sementeiras da Primavera.
Por ter salvo uma criança engasgada, tornou-se protector das gargantas. E, por se ter refugiado numa caverna, tornou-se o interlocutor privilegiado dos animais.
S. Brás concentra uma série de motivos míticos essenciais para compreender o mito do Carnaval, desde o seu nome que, em bretão significa lobo, até ao facto de ter uma vida equiparada à dos animais selvagens, vivendo nessa caverna como o urso dos contos e das lendas.

Quem passar pela Nazaré, notará um frenesim pouco habitual em época invernia e aperceber-se-á que todos os caminhos vão dar ao monte de S. Brás. É, para alguns, um carnaval antecipado, mas para os Nazarenos é o início dos festejos. Só à noitinha regressam a casa, para logo a seguir, fazerem o primeiro dos quatro bailes obrigatórios, antes da terça-feira gorda.


S. Brás, Nazaré, 2007

2 de fevereiro de 2009

Natal acabado, Venha o Carnaval

Na noite de 1 para 2 de Fevereiro, precisamente 40 dias após o nascimento do Menino, fazem-se procissões com velas acesas (ou candeias), homenageia-se a Senhora das Candeias ou da Purificação e em muitos locais, como em Moura, come-se o boi do povo.
Segundo a mitologia cristã o Menino é apresentado no Templo de Jerusalém pelo santo velho Simeão, acto ritual de purificação da Senhora.
Durante a Idade Média estas procissões faziam-se pelos campos, num apelo à fertilidade e purificação da terra, que em breve receberia as sementes.
Fevereiro assinala o início das Lupercálias, em Roma e, segundo a mitologia celta, marca a festa de Imbolc, em honra da deusa celta Brígida,protectora dos rebanhos. Era nesta data que se celebrava o nascimento dos cordeiros e o regresso do leite das ovelhas.
Estas festas foram cristianizadas, mas os actuais rituais ainda deixam antever a importância do dispositivo mitológico antigo.
Esta data assinala também o meio do Inverno, daí adivinhações representadas em provérbios:
Se a Senhora das Candeias chora, está o Inverno fora;
Se a Senhora das Candeias ri e chora, está o Inverno meio fora;
Se a Senhora das Candeias rir, está o Inverno para vir.
Ou seja, se não chover o Inverno está para vir, se chover o Inverno já passou. Se estiver ora sol ora chuva, ainda aguentaremos mais uns diazitos de Inverno.

20 de janeiro de 2009

Mercearia Pena, vale a pena

Na realidade, este blog não nasceu para falar directamente da sua autora nem dos seus amigos, mas vem agora a propósito referir algo que lhes diz respeito e, dado que se refere à cidade das Caldas e ao papel que os blog's podem ter, aqui vai:
Caldas tem sido notícia, por via do eventual fecho das Faianças Bordalo Pinheiro. Má razão é verdade, mas por isso mesmo, amigos e familiares telefonam a saber se ainda há peças, se vale a pena comprar, se eu tenho comprado, etc, etc. Como não sou coleccionadora nem recolectora nem amante de objectos que dão trabalho a limpar e a arrumar, esquivo-me a essas perguntas dizendo diplomaticamente que estou a acompanhar o processo, etc e tal e que, naturalmente, é bom que venham!
E vêm!
E compram!
E... imaginem só!
Não deixam de ir à Mercearia Pena. Isto tudo, graças ao blog e à qualidade dos produtos PENA!
Aqui fica mais uma foto (de fraca qualidade, é verdade!) para abrir o apetite de todos aqueles que apreciam o comércio de coisas boas.

Vanity

Ainda a propósito de comércio tradicional e das lojas que vale a pena visitar, nas Caldas, aqui ficam algumas fotos da VANITY:




17 de janeiro de 2009

Santo Antão de Óbidos

Este ano, Santo Antão de Óbidos abriu o seu leque protector dos animais, às pequenas avezinhas domésticas. Depois de já ter incluido os cães e gatinhos de estimação nos animais protegidos, passou agora a ter a mesma benevolência para com as aves, simbolizadas neste piriquito, e não noutra, porque este era o único molde que havia no sítio das encomendas de ex-votos de cera.
A organização cedeu aos pedidos dos devotos que têm aves em casa e que, naturalmente, como todos os outros animais, precisam de quem as livre das doenças.

13 de janeiro de 2009

Bongosto nas Caldas

Em frente à Minnilloja fica um vão de escada, uma espécie de arquinha doméstica. É o Bongosto, onde se apanham malhas das meias de vidro, se vendem pinças apropriadas a cada tipo de pêlo, perfumes ao gosto de cada qual e ainda as insignificâncias que davam pelo nome de frivolidades, mas nada comparáveis à cangalhada que enche as prateleiras de lojas de coisas inúteis.
E a senhora, que se queixa já não poder apanhar malhas por falta de quem lhe forneça as agulhas, mantém um role de clientes que diariamente ali deixam dois dedos de conversa rodeadas de frivolidades. O tempo parece não passar por ela. É um prazer vê-la, bonita, de bâton a abrir-lhe o sorriso e a condizer com o colorido das unhas que delicadamente folheiam o livrinho das notas.

12 de janeiro de 2009

Única no Mundo


Única no Mundo é assim que o Sr. Neto define a sua loja. Mesmo com o stock praticamente esgotado, ela merece uma visita e, porque não comprar algo que, por exemplo, não faz vincos e é 100% algodão?



11 de janeiro de 2009

Minnilloja nas Caldas da Rainha




Entrei na loja e perguntei se podia tirar umas fotos. Ele estava a engendrar uma gingajoga para segurar as pernas de uma pequena mesa que teimavam em querer cair.
Que sim, que podia, pois então. Porque não?
E continuou: É pena é que não se possa ver como ela é porque ficou vazia, completamente vazia, vendeu-se tudo, com este frio. tudo. E agora estão todos em balanço e não me mandam mais mercadoria. Ainda agora uma senhora se foi embora sem levar o que queria porque já não tenho. É que não tenho mesmo. Vendeu-se tudo. Mas esta loja é única. Única. Não há igual.
- Pois não.
Falámos, rimos e fui convidada para a festa dos seus 100 anos que há-de ser em S. Martinho do Porto, no mês de Junho de 2023. "Fica já convidada", repetiu. E eu aceitei.

8 de janeiro de 2009

Comércio Tradicional

Questão suscitada pelo comentário do João Serra:
Comprar no coração da cidade das Caldas pode ser tão pouco tradicional como comprar no Vivaci, o Centro Comercial inaugurado em Dezembro.
No fundo, no fundo, esta expressão - comércio tradicional - tem sido usada, não tanto para expressar a longevidade de um determinado comércio, mas antes, as suas especificidades. Daí haver muitas lojas que praticam um comércio inovador, pelos produtos que vendem e pela forma como o fazem, e que preferem instalar-se em zonas das cidades que privilegiam a relação cliente/comerciante. Acontece em Lisboa, no Bairro Alto ou em Campo de Ourique, e aqui mais perto, em Alcobaça, na zona que foi devolvida aos peões, ou mesmo nas Caldas. Veja-se a Vanity ou a charcutaria, ambas no Terreiro das Gralhas.
Na primeira, o atendimento é impecável, agradável e muito íntimo. É uma iniciativa do jovem Elói, criativo e dinâmico. Dá a ver o que de inovador se faz na moda portuguesa e internacional (veja-se foto, em baixo). O cilente é convidado a ver exposições/instalações ou a sentar-se no pátio experior, sem estar sujeito a empurrões e onde sente que é desejado.
Na charcutaria encontra produtos de óptima qualidade, desde pão caseiro, a enchidos, compotas, queijos, frutos secos, e muito mais, mas tudo servido com amabilidade e gentileza. Tanto num, como no outro, somos atendidos pelos próprios donos ou por pessoas que lhes são muito próximas, normalmente, familiares.
A vantagem deste tipo de comércio, para mim, é a empatia que naturalmente surge entre quem está do lado de lá e do lado de cá do balcão, ou mesmo entre clientes. E mais ainda, é o cliente sentir que é desejado, que é conhecido e reconhecido, quando a senhora lhe diz que afinal já tem o produto que prefere ou quando lhe sugere outro produto que substitui o que procura. Ou, quando as coisas correm mal, é óptimo poder reclamar directamente, sem ter que preencher papéis, e ser de imediato atendido. Há excepções... lembro-me de uma tradicionalíssima loja de rendas, malhas, agulhas, retroses, nastros e tecidos... Meu Deus! a antipatia do dono era a marca da casa... mas já toda a gente sabia que era assim... menos eu! quando lá entrei pela primeira vez, há uns 20 anos!
Também na Bertrand do Vivaci poderemos ser muito bem atendidos, poderão respeitar as nossas preferências, poderão ser amáveis, mas faltará qualquer coisa para que se lhe possa chamar "comércio tradicional". Talvez falte o rosto que ainda tem os traços daquele que foi o iniciador da saga.
Portanto, ser tradicinal, a meu ver, nesta coisa do comércio, é criar laços.

1 de janeiro de 2009

Mercearia Pena

PARABÉNS à Mercearia Pena, pelos seus 100 anos.
Quando cheguei às Caldas esta mercearia tinha à porta uns bidões de línguas e caras de bacalhau salgadas e um outro com atum em salmoura. Emanava um cheiro característico de uma mercearia semelhante à que conhecia, em Ourém, do Manuel Cartucho (porque passava o tempo a fazer cartuchos..) que trazia na minha memória. Cheirava também a café ou a cevada. Recordo-me de um moço de recados, já pouco moço, de lentes muito grossas que andava pela cidade, a puxar um pequeno carrinho de duas (ou três rodas... mas não de 4, seguramente), com encomendas, com sacos de bacalhau e coisas semelhantes. Sempre o associei à Mercearia Pena porque era de lá que o via sair, com o seu apetrecho.
Mas eu, apesar de ficar sempre tipo "lèche vitrine", agarrada às montras, fascinada com os merceeiros, e seduzida pelas máquinas de café de balão, nunca fui cliente assídua.
Só a partir de Maio deste ano, já depois da sua remodelação, e depois do fecho da "minha" mercearia - A Linda -, é que me tornei cliente.
Embora já lá entre com muito à-vontade, sinto que ainda não faço parte daqueles clientes que se sentam numa cadeirinha e desfiam o rol das compras, daqueles que a empregada, muito simpaticamente ajuda a transportar os sacos, enfim, daqueles que ouvem de imediato um cumprimento à entrada: "Bom dia, Sr. Fulano, então como vai a D. Sicrana?" ou daqueles que basta espreitarem à porta, para de imediato saberem se já chegou o chá preferido ou as alheiras de caça, ou o tal bacalhau. Percebem?
Mas o cuidado com que me atendem é o mesmo. Simpatia. Delicadeza. Vontade de ajudar e sugerir outras hipóteses de compra. “Deseja um bom chá? Temos muitos. Deliciosos. Quer ver?” Ah! E a gente mesmo que tenha a caixa dos chás cheia, não pode sair sem mais um!
É lá que encontro uma panóplia de alimentos de óptima qualidade e alguns, quase raros, como os chícharos (lá, escrito com x's), prato de Inverno a não perder! É lá que estão as boas bolachinhas para o chá e bons queijos e boa charcutaria.
Fica um desejo, que nem o Vivaci, nem os Belmiros nem Companhia encharquem demasiado a cidade com super's de grandes superfícies que afoguem a MERCEARIA PENA.