23 de agosto de 2009

Romaria de Nossa Senhora da Agonia

De FESTA NACIONAL DO MINHO a RAINHA DAS ROMARIAS DE PORTUGAL
Desde meados do século XVIII que a imagem de Nossa Senhora da Agonia é venerada em Viana do Castelo, a 20 de Agosto.
A primeira referência escrita ao culto de Nossa Senhora da Agonia data de 1744, mas a Romaria só nasce alguns anos mais tarde, por volta de 1823. Passou a movimentar tanta gente do concelho de Viana e de outras terras vizinhas, mas mesmo tanta gente, calculada, por exemplo, em 1862, em mais de 50.000 pessoas, que, em 1929, o Conde de Aurora, profundo conhecedor do Alto Minho, lhe atribuía o epíteto de A Festa Nacional do Minho. Já antes, em 1873, Pinho Leal escrevia que esta era “a mais concorrida” do Alto Minho e agora já é considerada a “ Rainha das Romarias de Portugal”.
Por efeito de réplica de grandiosidade, a de Lamego, em honra de Nossa Senhora dos Remédios passou a ser chamada de A Romaria de Portugal. Rivalidades à parte, estas são duas das grandes romarias que se fazem em pleno Verão. Como a de Lamego ainda há-se vir, lembro agora, a de Viana, que decorreu, de 8 a 23 de Agosto.
Mesmo antes da festa e da feira terem sido instituídas, já o povo se deslocava à capela da Senhora da Agonia em romaria, ansiando receber as indulgências que os papas e os bispos não se cansavam de atribuir a quem cumprisse com as condições impostas – assistir às missas celebradas em honra de Nossa Senhora da Agonia; rezar em determinados dias, tantas ave-marias, tantas salve rainhas ou tantos pai-nossos. Ao mesmo tempo pagavam as suas promessas e contribuíam fortemente para alimentar as obras que durante um século decorreram na igreja. O sal, as peças de vestuário, os cereais, o gado e o dinheiro que deixavam eram uma mais-valia para os construtores do templo.
Foi assim e com o decorrer do tempo que o culto de Nossa Senhora da Agonia ficou particularmente ligado à comunidade piscatória. A atestá-lo temos o número de ex-votos que aludem a milagres relacionados com o mar, com náufragos e com tempestades. Este aspecto torna-se mais visível no transporte do andor só por pescadores e no percurso que a procissão toma, privilegiando o bairro dos pescadores. É ainda factor relevante da quase “apropriação” do culto pelos pescadores, a procissão fluvial que desde 1968 passou a fazer-se, sendo a imagem conduzida num barco de pesca.
As actividades lúdicas foram crescendo. O arraial, os cantares à desgarrada e, mais tarde, a tourada agradavam a todos.
O brio dos organizadores, a disputa entre eles e a fama da romaria fizeram com que novas actividades fossem introduzidas: cabeçudos e gigantones em 1893, fogo preso em finais do século XIX, a Festa do Traje e a primeira parada agrícola, no início do século XX e o Cortejo Etnográfico, em 1933.
Hoje o programa contempla, para além das celebrações religiosas, manifestações cívicas, cortejos, desfiles, feira de artesanato, arraiais, ruas atapetadas de flores, concertos e muito fogo-de-artifício. A Romaria afirma-se, como festa municipal fundamentalmente desde os anos 30, coroando Viana, rainha e capital do Alto Minho.

6 de julho de 2009

O Rasto e o Rosto da Rainha Santa

Em Portugal, as maiores referências à Rainha Santa, tanto no que diz respeito ao mito, como ao culto, encontram-se ao longo de diferentes eixos geográficos, identificados com percursos que a própria rainha fez. Um estende-se de Bragança a Coimbra e coincide com a entrada de Isabel de Aragão, em Portugal, para esposar o rei D.Dinis; outro estende-se de Lisboa a Coimbra, passando por Leiria, correspondendo ao caminho real medieval e continuando até Valença, dando seguimento ao caminho de Santiago de Compostela que a rainha fez como peregrina. Também Estremoz e Alenquer fazem parte desta rota, correspondendo, respectivamente, ao local onde a rainha faleceu e onde viveu. Por todos estes locais a rainha deixou memórias que contribuíram para criar uma auréola de santa, o que veio a culminar com a criação de um grande número de lendas e de sítios de culto. Na região de Leiria, Monte Redondo dedica-lhe uma festa anual, no mês de Julho. Em Ansião, terra, cujo topónimo, justifica a sua origem, numa lenda atribuída à Rainha Santa, tem quatro capelas e igrejas que lhe dedicam o culto, podendo até falar-se da rota da Rainha Santa. Também Odivelas, Amor (Leiria),Lumiar, Ansião, Almoster, Pataias, Cartaxo e Vila Flor, entre outras, justificam a sua toponímia em lendas etimológicas tendo por origem factos históricos, ou não, nos quais a Rainha é protagonista.
Para completar estes escritos sobre Isabel de Aragão, diga-se ainda que era uma rainha muito culta, da qual se pode falar com conhecimento em muitas fontes escritas, pois deixou inúmeras cartas pessoais e documentos que comprovam a sua importante acção social, como seja a fundação de hospitais (como o de Leiria), de hospícios, albergarias e gafarias (como a de Óbidos).
Agora, sim, para terminar, acrescente-se uma curiosidade: o seu rosto chegou até aos nossos dias, tal como ela própria mandou esculpir no seu túmulo. Não é, portanto, obra da imaginação de artistas, como acontece com o da Rainha D. Leonor, esposa de D.João II, irmã de D. Manuel.

5 de julho de 2009

A lenda das rosas e outras

As muitas lendas que se criaram à volta da Rainha Santa, embora reflictam a implantação popular do mito isabelino, são, muitas vezes, baseadas em relatos biográficos e cronísticos. Elas relatam feitos gloriosos e prodigiosos, sempre com a intervenção miraculosa da Rainha Santa, sendo, a das rosas, o elemento nuclear do mito e do culto. As prodigiosas, em número que atingem meia centena, sublinhe-se a do mausoléu que, ameaçado pelas águas do Mondego, dá um salto e põe-se, miraculosamente, em sítio seguro ou a das águas do Tejo que se apartam para deixar que a rainha vá junto do túmulo de Santa Iria. A nível mágico-terapêutico é de referir a da rainha lavadeira, segundo a qual as águas do rio onde a Rainha lavava os panos do hospital de Alenquer passam a ter eficácia curativa.

Porém, a mais conhecida é a que tornou num ícone de bondade, opondo as virtudes da rainha à crueldade do marido, elevada à categoria de Milagre e, pela primeira vez escrita em 1562, na Crónica dos Frades Menores:
"levava uma vez a Rainha santa moedas no regaço para dar aos pobres,
Encontrando-a el-Rei lhe perguntou o que levava,
Ela disse, levo aqui rosas.
E rosas viu el-rei não sendo tempo delas".
Muitas outras versões foram criadas pela imaginação
popular. Numas, as moedas são pão, noutras ouro, enfim, o que se mantém são as virtudes cristãs da rainha e todas estas versões são reivindicadas, simultaneamente, por Leiria e Coimbra.

Imagem retirada daqui. Peça de Rita Matias.

Nota: Os meus trabalhos sobre a Rainha Santa têm-se baseado na observação directa das festas que lhe são dedicadas, em entrevistas através das quais recolho lendas, na leitura do Cancioneiro, em Leite de Vasconcelos e em estudos de investigadores, dos quais relevo Maria Lourdes Cidraes e Maria Lucília Pires.

4 de julho de 2009

Da memória histórica ao mito


É a 4 de Julho que se celebra a morte de Isabel de Aragão, esposa do rei D. Dinis. Este ano, por ser um ano ímpar, Coimbra não recorda a sua padroeira com a sumptuosa procissão que, de dois em dois anos, percorre as ruas da cidade.
A Rainha Santa Isabel é, segundo os historiadores, uma das mais notáveis figuras femininas da nossa história e um mito popular e religioso que alcançou prestígio e fama a nível nacional.
Em vida, muitos factos contribuíram para que, logo após a sua morte, passasse a ser chamada “rainha santa” e as circunstâncias da sua morte também ajudaram.
Ela foi apaziguadora entre reis que estimulavam a guerra, reconciliou o seu marido com o filho Afonso, incentivou obras sociais, apoiou conventos e congregações religiosas. Acompanhou o marido na sua doença, tendo-o tratado ela própria e, no dia da sua morte, vestiu o hábito de clarissa. A seguir às exéquias foi, como peregrina, a Santiago de Compostela. Acabou por dedicar o resto da sua vida a obras de caridade.
Morreu a 4 de Julho de 1336, de morte súbita, quando se dirigia para a fronteira, numa tentativa de pacificação entre o filho, Afonso IV , e o neto, Afonso XI, de Castela.
Decisiva, para o início da construção do mito foi a transladação de Estremoz até Coimbra, que durou sete dias e sete noites, sempre acompanhada por uma multidão devota e entusiasta. Apesar do calor abrasador, o ataúde exalava um “tão nobre odor (que) nunca ninguém tinha visto”, conforme relata a sua primeira biografia, intitulada Livro que fala da boa vida que fez a Rainha de Portugal, Dona Isabel, e seus bons feitos e milagres em sua vida, e depois da morte.
Esta bibliografia realça os inúmeros actos de devoção e de piedade cristã da rainha que, logo após a sua morte, recebeu manifestações de devoção. Assim se iniciou o culto e nasceu o mito.

(Agradeço a M. Lourdes Cidraes por todo o conhecimento que nos tem trazido sobre esta figura histórica e mítica)

2 de julho de 2009

Vivendo com a utopia

NO CAMINHO DA UTOPIA
A utopia está no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.
Eduardo Galeano, poeta uruguaio

13 de junho de 2009

Ausências

Ausência prolongada do prazer de alimentar o blogue, foi o que aconteceu.
O acesso à internet era difícil, mas não impossível, por isso, não pode servir de desculpa.
Se alguma justificação fosse necessária, diria que o desejo não alimentou a vontade. Foi um tempo de olhar para as Festas do Espírito Santo na Ilha do Pico e de participar num interessante congresso - Sharing Cultures - International Conference on Intangible Heritage.http://sharing.cultures2009.greenlines-institute.org/accepted_abstracts.php
Agora regresso ao blogue e às notícias ignoradas, porpositamente, durante todo este tempo. Mas, ouvir, na Antena 2, pelas 7 e tal, Pedro Malaquias fazer a revista de imprensa diária, dá vontade de fazer o mesmo às 8 e às 9 e tal. É único este olhar crítico e irónico da leitura que faz das notícias a letra pequena dos jornais diários.

23 de maio de 2009

Caldas late night - Hábitos de Maio 12

As noites das caldas são animadas pelos alunos da ESAD por uma iniciativa chamada caldas late night. Com a ajuda de um esquema/mapa, as pessoas inteiram-se dos locais onde decorrem performances, música, exposições e sketchs. ~
A cidade mexe. Ouve-se música e burburinho durante a noite e no dia seguinte a festa continua na Rua da Montras. É um prazer andar na cidade durante estas noites!
Hoje, uma das varandas do meu bairro chamava a atenção por estar demasiado iluminada e, aparentemente, "decorada" da forma mais natural de uma varanda bairro: roupa a secar e cangalhada indecifrável, cá de baixo. A porta do prédio estava aberta. Um papel anunciava: aberto das 10,30-00,30. Um cartaz do Caldas late night identificava a iniciativa e uma música especial, vinda lá de cima, convidava a entrar.
Uma das coisas interessantes deste movimento é, precisamente, abrir as portas das casas a todos os que peregrinem pelos pontos animados pelos estudantes.

22 de maio de 2009

Aniversários - Hábitos de Maio 11

O mês de Maio é o mês que concentra mais aniversários de amigos e familiares. São filhos de Agosto... quem faz um filho, fá-lo por gosto.

20 de maio de 2009

Dia da espiga antecipado - Hábitos de Maio - 10

Hoje, HEAVENLY antecipa o dia de amanhã, dia de colher, entre outras plantas, a papoila da fúria de viver: http://vascotrancoso.blogspot.com/

A espera do Bom Verão - Hábitos de Maio 9

Num dia, não fixo, entre Abril e Maio, conforme as localidades, os hábitos e os costumes, as populações encontravam-se nos campos, comiam juntos, cantavam e dançavam. Diziam que iam esperar o Bom Verão e a época das sestas iniciava-se nesse dia. Ainda hoje se notam resquícios desta prática junto à Lagoa de Óbidos, em frente ao Covão dos Musaranhos.
Em 1878, D. Luis Vermell Busquets dava-nos conta do que se passava nas Caldas da Rainha:
"Nove dias depois da Paschoa, esta villa parece um deserto, quasi todas as portas estão fechadas, e perguntando eu o motivo, disseram-me que os habitantes n'este dia de cada anno saem a buscar o «bom verão», quer dizer, que vão divertir-se fóra da povoação com a esperança de futuros lucros: os operarios por que se acabam os serões, e começam as "sestas".
Origem do Real Hospital e da Villa das Caldas da Rainha com mais alguma noticia interessante assim histórica como archeologica, e também acerca da virtude das aguas mineraes da dita villa, D. Luis Vermell y Busquets (o peregrino espanhol), -Pintor, e esculptor-entalhador da Real Casa de Sua Magestade o Senhor D. Fernando.Editado em Lisboa na Typographia Universal de Thomaz Quintino Antunes, impressor da Casa real, Rua dos Calafates, 110, em 1878, pg. 29.
Agradeço à Isabel Castanheira esta informação.

17 de maio de 2009

Na Região de Mafra - Hábitos de Maio - 8

Em O ETERNO FEMININO NO ARO DE MAFRA, num capítulo intitulado O CALENDÁRIO DA GRANDE DEUSA na Região de Mafra, assinado por Manuel GANDRA, lê-se o seguinte, no que se refere ao mês de Maio:
1 de Maio - Rebolão (Malveira): manjar ritual sobre uma mó no cimo do Cabeço do Cerro, após o que a mó (pedra fêmea) era lançada Cerro abaixo (figurando o princípio masculino), com o objectivo de propiciar a fertilidade;
Visita das Fontes (Ericeira), com consagrações florais e ofertas de pão e trigo.
3 de Maio - Divina Bela Cruz (Póvoa da Galega): colocação de cruzes floridas nos campos.

Foto de Afonso Alves in PORTUGAL, FESTAS e ROMARIAS, Clube Internacional do Livro, 1999

O ritual de do dia 1 de Maio da Malveira assemelha-se ao que se passa em Monsanto (Idanha-a-Nova):
O cortejo dos habitantes sobe até ao castelo, encabeçado por mulheres que cantam e tocam adufes. Algumas delas
levam cestos floridos à cabeça, mas um deles é designado por "bezerro florido" e é atirado do alto dos penhascos, ribanceira abaixo. Diz a lenda que este bezerro simboliza um gesto de há séculos levado a cabo pela população que, enganou os invasores, atirando-lhes com um bezerro, fazendo-lhes pensar que estava com fartura suficiente para aguentar o cerco. Foi este gesto que os salvou, pois os invasores partiram em retirada, afirma a lenda.
De facto, o que se homenageia é, não só a fertilidade, mas também o desejo de abundância das sementeiras que se iniciam.





Foto de Afonso Alves in PORTUGAL, FESTAS e ROMARIAS, CIL



16 de maio de 2009

Presente de Maio

Um presente de Maio, pela mão de José do Carmo Francisco, a quem agradeço muito.

Uma memória de luz ou pequena dissertação sobre a Primavera

Uma tarde estava eu na Ilha de Murano
A ver o esplendor do fogo das forjas
De onde saem peixes, relógios e cavalos
Quando me lembrei da força da terra
Não da terra propriamente dita, o planeta
Mas a terra de onde viemos e nos espera

Terá sido porque tinha estado em Burano
E no caminho vi o cemitério de Veneza
Cruzando a força das rendas das mulheres
E das redes dos pescadores dessa laguna
Com a fragilidade das flores mais secas
Sobre as pedras com as datas e os nomes

Lembrei-me mais da Primavera nesse lugar
Onde a terra era tão escassa e o mar imenso
No sono dos pequenos barcos no nevoeiro
No sossego interrompido pelos navios de luxo
Que descem o Adriático ao som da música
Mais fria, pobre e triste que se pode imaginar

Lembrei-me mais do cortejo do trem do cuco
Quando as coisas mais velhas e mais feias
Enchiam todos os carros de bois em desfile
Por entre os risos dos homens de barrete
E a desaprovação das mulheres velhas à porta
Porque havia ali coisas ainda boas de servir

Lembrei-me mais das fogueiras antigas
Nessas noites de cortejo no nosso Largo
Onde o Pelourinho é memória de justiça
E os rapazes mais velhos não deixavam
Que os pequenos saltassem a fogueira
Porque tudo tem o seu tempo na vida

Lembrei-me mais da nossa primeira festa
Que era sempre no Domingo de Pascoela
No Lugar da Granja Nova onde eu ia a pé
E o primeiro arroz de ervilhas da minha avó
Com o coelho do meu avô e dos meus tios
Era comido pelos músicos à beira do rio

Lembrei-me das nossas procissões à tarde
Quando eu segurava a naveta do incenso
E o turíbulo tinha brasas da nossa lareira
Que o meu tio ia buscar sempre a correr
Porque tinha o casaco de músico para vestir
Tocava trompete e fazia falta na filarmónica

Lembrei-me mais das festas de arraial
As gasosas a subirem do poço num cesto
A frescura nada tem a ver com frigorífico
Quando o vinho tinto amolecia as cavacas
E só assim o menino que era eu as comia
A olhar o coreto rodeado de sol e de pó

Lembrei-me mais de eu ser tão pequeno
E toda a gente na família me dizia
Para me levantar cedo e eu falhava
Não sejas lapão não deixes entrar o Maio
Repreendia a minha avó todos os anos
Sem nunca me explicar esta sua fala

Lembrei-me mais de ir ao Vale de Água
Para trazer os vários ramos da Primavera
Para nós, para a Tia Velha, para a Ti Zabel
Será por isso que ainda hoje no Chiado
Há quem venda estes ramos a alto preço
E um vai logo para o meu neto em Londres

Será isso hoje a Primavera possível
Um ramo num envelope almofadado
Ingénua maneira de prolongar o tempo
Que flutua numa memória qualificada
Mas não existe na verdade no campo
Onde se vive o esplendor dos pesticidas

Afinal nem tudo se perdeu, nem tudo caiu
Como eu não percebia as falas da minha avó
O meu neto vai demorar a perceber o ramo
Que ele possa chegar ao Outono como eu
Com o fogo da Primavera no seu olhar
E uma memória de luz onde tudo continua

José do Carmo Francisco

15 de maio de 2009

Maio nas Caldas

Este ano celebrou-se a cidade com o ritual do esbanjamento que os autarcas começam a instituir como tradição. Veio o Tony Carreira encher a Avenida. Seguiu-se o fogo de artifício que conseguiu quase abafar todas as vozes que se opõem ao potlach.
O Museu Bernardo festejou à sua maneira, nas margens. Não esteve na Avenida, mas, na sua sede, ali perto, organizou um concerto com a famosa banda, The Wall que, enquanto o fogo de artifício decorria, festejou, estridentemente, os 20 anos da queda do muro de Berlim. Ao mesmo tempo os performers destruíam a golpes de picareta o muro que, como as margens comprimem o rio, também ele comprimia o Museu.
Depois fizeram-se as contas e sobraram muitos milhares entre os gastos da Avenida e os do Museu Bernardo.

14 de maio de 2009

Procissões e rogações em honra de Maria - Hábitos de Maio 7

Depois da polémica sobre os touros de morte, em Barrancos, aquando da festa de Nossa Senhora da Conceição e, guardadas as devidas distâncias, no que a Fátima diz respeito, a procissão de Nossa Senhora Rainha da Paz, do Bairro da Bela Vista, de Setúbal, é a que, ultimamente, mais mereceu a atenção dos media.
Eles espiolharam as intenções dos que assistiam, eles escarafuncharam o mais possível na razão das promessas, eles viraram do avesso a fé e a devoção, tipo cães pisteiros.
Para o ano a notícia continua: "Faz hoje um ano que a procissão não passou pelo Bairro da Bela Vista ..." Já nem farão referência ao nome da Senhora. Pouco lhes importará referir este acontecimento com um dos hábitos de Maio - a dedicação deste mês,a Maria, prática importada desde meados do século XIX. Também pouco lhes importa reflectir sobre a Rainha da Paz porque para o ano a luta será outra. Mas fica aqui registado este nome que coroa Maria, na sequência do culto à Grande Mãe e às deusas que na Primavera eram festejadas.

13 de maio de 2009

Dia de Santa Cruz - Hábitos de Maio 6

No Domingo de Ramos benzem-se os ramos de loureiro e de oliveira que são guardados e, no dia 3 de Maio, a população de Folgosinho, dia de Santa Cruz, “fazem cruzes com eles, colocam-nas nos campos e sobre as casas para afuguentar as trovoadas, as pragas de bichos prejudiciais às culturas e atrairem as bençãos de Deus”. in A VILA DE FOLGOSINHO, pg.103.

12 de maio de 2009

Liljekonvalje - Hábitos de Maio 5


Mais uma informação dada pela minha amiga Agneta Bjorkman: Na Suécia as pessoas oferecem estas flores, umas às outras. São chamadas Liljekonvalje (lírios dos vales).

11 de maio de 2009

Majblomma - Hábitos de Maio 4


MAJBLOMMA
Durante o mês de Maio, vendem-se, na Suécia, pequenas pregadeiras, cuja receita reverte a favor de obras de solidariedade social. Estas pregadeiras têm o nome da flor amarela, Majblomma, que lhes deu origem. Embora esta prática se conheça apenas desde 1907, é muito provável que tenha as suas raízes num antigo hábito


MAJBLOMMA

europeu de pôr à porta e nos campos, flores amarelas, para glorificar a Deusa Maya e dar as boas-vindas à Natureza florida, do qual resta a cor amarela, obrigatória no centro da flor, dado que a cor das pétalas mudam de ano para ano, mas nunca a da corola.
Devo esta informação à minha amiga Agneta Björkman que me disse ainda que se recorda de ver, no dia 1 de Maio, os carros enfeitados com Majblomma.
Também em Portugal esse hábito era frequente até, pelo menos, aos anos 70. Ainda hoje se colocam flores amarelas à porta. Nuns sítios usan-se giestas e noutros, maias. Teófilo Braga assinalou este costume em O Povo Português, Vol. II: "no dia 1º de Maio, colocam-se nas portas e janelas flores de giesta, prservativo contra o Maio, que sem ele aleijará os bacorinhos, pintos e anhos."

6 de maio de 2009

Maio Florido - Hábitos de Maio 3


Iluminura de TRÈS RICHES HEURES du duque de Berry referente ao mês de Maio.
"Le dieu d'Amour est coutumier
A ce jour de fête tenir,
Pour amoureux coeurs fêter
Qui désirent de le servir;
Pour ce fait les arbres couvrir
De Fleurs et les champs verts gai,
Pour fêter la plus belle embellir,
Ce premier jour de mai"
(Charles d'Orléans, ballade no48)

2 de maio de 2009

Não casar em Maio - Hábitos de Maio 2

O mês de Maio era, na Roma antiga, consagrado aos antepassados.
Na Antiguidade e em toda a Idade Média perpetuou-se a interdição de efectuar casamentos neste mês, dado que se corria o risco de ter como esposa um ser vindo do outro mundo. Esta ideia de ver o casamento amaldiçoado persiste em algumas regiões de Portugal, substanciada, por vezes em ditos como este, que diz respeito a Mafra: “Casamento em Agosto é desgosto! Casamento em Maio é estéril”.
Os ritos e mitos deste mês rodam à volta da vegetação e das flores. Há descrições de paradas, cortejos e desfiles onde os intervenientes usavam fatos e chapéus floridos e do costume de pôr flores, ou mesmo plantar árvores, à porta das pessoas que se queria obsequiar, na noite que antecede o primeiro de Maio.
Em França mantém-se o hábito de oferecer um ramo de pequenas flores brancas, o muguet, aos amigos, neste dia. Em Portugal é usual colocar maias às portas das pessoas e enfeitar os carros e os campos com esta flor.
Na religião católica, este mês é consagrado a Maria.

1 de maio de 2009

Acordar cedo - Hábitos de Maio 1

Hoje é dia de acordar cedo para não deixar o Maio entrar em casa. É dia de pôr as maias, as flores amarelas, à porta para afastar o mal.
Em muitas localidades, ainda persiste este hábito, como por exemplo, em Óbidos e algumas das suas freguesias.

28 de abril de 2009

Confraria do Príapo

Nasceu hoje a Confraria do Príapo nas Caldas da Rainha.

25 de abril de 2009

21 de abril de 2009

Memória afectiva das salinas do Arelho

Começou a trabalhar nas salinas do Arelho aos 11 anos,
em 1944. Tornou-se dona das salinas até 1969, ano em que emigrou, ano em que as salinas ficaram definitivamente desactivadas.
Faz hoje 76 anos.

19 de abril de 2009

Roubar Figos é coisa santa

Quando Abril começava a despontar e, se o sol fosse generoso, iniciava-se a limpeza dos canteiros, no braço da Lagoa que se estende até quase ao Arelho. A lama arrastada pelas marés e pelas chuvas era retirada pelo valador e depois levada para os terrenos contíguos, pelas mulheres, para se dar início à tarefa da apanha do sal.
Era um trabalho que demorava cerca de um mês, com mais de uma dezena de mulheres a correrem pelas valas, como formiguinhas, de gamelas à cabeça.
Era assim, na Lagoa de Óbidos, desde o nascimento das salinas, em 1930, até 1969, ano em que ficaram desactivadas.
Felícia, hoje com 83 anos, filha de pais abastados, donos de terrenos e de animais, nunca trabalhou nas salinas, que era sítio para filhas de gente de menos posses. Mas trabalhou, e a sério, nos campos, a sachar e a mondar. Calcorreou bons quilómetros, para levar o jantar aos homens que trabalhavam à jorna. Ia, de madrugada, vender para a praça das Caldas. Regressava, a horas tardias, sem comer e, por vezes, montada no macho, a abrir caminho ao pai, não fosse aparecer a ladroagem e ficar com o dinheiro da venda.
Nunca trabalhou nas salinas mas lembra-se muito bem de se regalar com a paisagem , por isso, quando o pai lhe dava ordem para ir trabalhar para um terreno que proporcionava essa vista, até agradecia. Porém, na sua mente havia sempre um mistério indecifrável. "Este estafermo da figueira, meu pai - dizia ela - vale mais arrancar-se. Nunca dá figos! Ainda por cima também nunca se lhe vê flor! Nunca cumpre a obrigação de dar fruto! Isto é coisa que até assusta. Parece obra do diabo."
Dizia-se, e ainda hoje se acredita, mas talvez Felícia não soubesse, que a figueira é uma árvore amaldiçoada e tão nefasta que seca o leite às mulheres que por ela passam.
Dizem que este castigo foi dado à figueira porque Judas se enforcou numa e, apesar de se saber que não é bem assim, continua a propagar-se a crença porque torna a coisa mais mágica, mais vibrante, mais interessante.
Os jovens já vêm com a verdade da escola: "as flores não se vêem, porque estão fechadas dentro de um receptáculo chamado sícone, que é o figo", mas às mães e às avós nem sempre dá jeito acreditar nestas verdades irrefutáveis e continuam a olhar para a figueira como a árvore que é tão má que até faz rebentar os lábios a quem come figos perto dela.
Seja como for, o que interessa para o caso é que Piedade, ela sim, trabalhadora nas salinas durante trinta e seis anos, muito tempo passado, desvendou o segredo da aparente infertilidade das figueiras.
As rapariguitas salineiras andavam sempre com o olho nos figos da figueira de Felícia. Os que se destacavam, os mais maduros não ficavam lá muito tempo. Às escondidas, davam lá um pulo e iam-nos colhendo, ao que se pode literalmente dizer que lhes chamavam um figo. Elas acreditavam no que se dizia, que a figueira é árvore tão ruim que nem pecado era roubar-lhe os figos.
Era, então, uma santa acção, esta de retirar os figos à árvore amaldiçoada. Matava-lhes a fome em horas de faina apertada e dura.
Estória escrita depois de uma tarde de conversa no Centro de Melhor Idade do Arelho.
Felícia tem hoje 83 anos e Piedade, 76 anos.
Os nomes são fictícios.

18 de abril de 2009

A propósito de adivinhas e de ovos

Que é que é
uma caixinha
redondinha
bem feita para rebolar?
Todos a podem abrir
ninguém a pode fechar...
A propósito de ovos e de adivinhas, Ana Paula Guimarães acrescenta, em CUIDAR DA CRIAÇÃO: ¨A adivinha parece, além do mais, funcionar como uma espécie de ovo cósmico da linguagem. Ovo cósmico é uma expressão usada pelo astrónomo belga Georges Lemaître (1894-1967) para designar o conjunto de matéria altamente compacto que teria dado origem ao Universo, átomo primordial. (...)
Na língua portuguesa, especula Cecília Diógenes, empenhada neste estudo do ovo na tradição popular e na publicidade, a palavra ovo é capicua, simétrica e circular. Constitui o princípio e o fim, dá origem a uma nova vida - partindo-se, reconstrói a geração.¨
O ovo não podia deixar de ser o símbolo por excelência da homenagem à Primavera. Não podria, pois, estar fora dos festejos que anunciam a transicção de uma estação do ano a outra.
O que parece estranho é a associação dos coelhinhos aos ovos, na época pascal.
Mas, para esclarecimento veja-se COCANHA.

16 de abril de 2009

De um amigo croata, recebi estes ovos de Páscoa, fotografados, em Zagreb, na Praça Vice-Rei Josip Jelacic.
Este ano o Turismo de Zagreb presenteou os habitantes da cidade e os veraneantes com este ovo pintado, segundo a tradição croata. Pisanica é o termo que designa estes ovos e significa "ovo cozido pintado". Agradeço, pois, estas informações que contribuem para estabelecer laços entre as raízes comuns da tradição europeia.










12 de abril de 2009

O ovo europeu

Poucos se lembrarão dos jogos de descoberta de ovos escondidos nos campos, que faziam na época de Páscoa, como este, da região de Mafra.
Os ovos continuam a fazer parte da simbologia pascal, mas agora em chocolate, ou cozidos e incrustados no folar. O chocolate só veio dar uma nova forma a um costume que vem de longe. O ovo era associado a lendas e mitos sobre a criação do universo, não só porque ele é a semente que contem o gérmen vital, mas também devido à sua forma, redonda, sem princípio nem fim. E a gema era associada ao sol, também ele fonte de vida. Ligado tão intimamente à vida, à regeneração, ao renascimento, ao vigor e, naturalmente, à Primavera, o ovo tornou-se num símbolo da Páscoa, em toda a Europa.
Na Europa Central, Ucrânia, República Checa, Hungria, Roménia e Croácia - os ovos são pintados e decorados, com signos e símbolos pascais ou primaveris.
Na Europa do Sul a decoração não é essencial ao rito. Eles aparecem muitas vezes só pintados de vermelho, em algumas ilhas da Grécia, como Rodes e Karpatos.
Em Portugal e na região mediterrânica fazem-se bolos onde se incrustam ovos inteiros cozidos com a casca. Em Portugal chamam-se folares, Campanile, na Corsega; Tsoureki, na Grécia;
La rosca de Pascua, na Calábria ou Muccelati e cannilieri. Estes bolos aparecem sob as mais diversas formas: corações, cavalos, vacas, peixes, porcos-espinhos, aves, águias e serpentes bicéfalas.
Serão estas diferentes representações apenas obra da fantasia e da imaginação?
A recorrência dos mesmos temas em diferentes partes da Europa faz com que duvidemos da simplicidade da resposta.
A serpente mítica da Sicília, por exemplo, encontra-se sob forma de escorpião na Calábria ou na Sardenha, e de lagarto, em Portugal e em Espanha, de dinossauro em Creta e de dragão na ilha de Karpatos. Como se, com a chegada da Primavera, todos estes seres arcaicos, saíssem do ventre da terra para figurar, de forma mais ou menos adocicada, a regeneração e a fecundidade.
As aves, nomeadamente, a pomba que também se vê aquando da Anunciação e do Pentecostes, são, evidentemente, os animais mais tolerados pela Igreja. E são também os mais frequentes. Por vezes a ave tem no bico um ramo de oliveira.
Em certos sítios, na quinta-feira santa, os rapazes recebiam um pássaro, um cavalo ou um dragão e as meninas recebiam uma boneca, em massa de pão, todos eles contendo um ovo. Mas estes meninos não podem comer os bolos, senão no dia de Páscoa. Na Grécia, levam-nos à igreja, no sábado santo, para os benzer… antes de serem comidas.
Em Portugal, poucas localidades mantêm o hábito de fazer folares em forma de animal. Castelo de Vide é um exemplo onde o costume se mantém.

9 de abril de 2009

Mãos de Tesoura

Até há pouco tempo, Mãos de Tesoura, soava a Eduardo e remetia para este grafite.


Entretanto, passou a designar uma loja cheia de imaginação e cor, sita na Rua da Cova da Onça, de seu nome
MÃOS DE TESOURA.



3 de abril de 2009

Renato

Foto de Margarida

27 de Fevereiro de 2009

2 de abril de 2009

Vidas d'aqui - 3

Vindo do Barreiro, onde nasceu, Renato chegou às Caldas em 1957, com 22 anos, já casado e com uma filha de três.
De imediato procurou alguém com quem se pudesse entender, alguém com quem pudesse falar sem muitos receios, mesmo que em surdina. Começou pelo Café Central. Entrou. Entrou várias vezes. Sempre lendo no olhar e nos gestos de cada um. O que leriam? E as conversas, de que falariam?
Por portas travessas indicaram-lhe um contacto a não perder: O Dr. Custódio, um democrata. Foi assim que se iniciou nos contactos com gente de esquerda. E foi assim, penso eu, que foi conhecendo gente do PC.
As suas raízes estão no Barreiro, onde já tinha palmilhado muito caminho, apesar dos seus apenas 22 anos. Aos oito, em 1943, entraram-lhe pela casa adentro e levaram-lhe o pai. Tornou-se, então “ladrão e pai de família”, como dizia. O mesmo aconteceu com outros miúdos que ficaram sem pai, sem tios, sem primos e sem irmãos. As mulheres, diz ele, choraram durante toda a noite e num raio de 15 quilómetros era uma escuridão de carpideiras.
Por isso, aos 22 anos, já tinha passado por uma grande escola de vida e de violência. Diz ele que foi o Salazar que lhe entrou no quarto ou melhor, na sala, onde dormia com a avó. No dia seguinte era o único homem da casa. Assim se tornou chefe de família. E ladrão? Sim. Roubava-se o que se podia, para comer e para aligeirar as despesas e o fardo que a mãe, a tia e a avó tinham de transportar.
Por isso, Caldas era a continuação dessa aprendizagem.
A cidade parecia-lhe uma coisa minúscula, com uma população igual a quarto dos trabalhadores que entravam na CUF.
A colocação de um comutador na fábrica da SECLA, tarefa que lhe foi confiada, deu-lhe acesso aos artistas locais e a ceramistas como o Ferreira da Silva e outros. Foi assim que entrou para o CCC e que, juntamente com tanta gente interessante, o dinamizou.

Caldas da Rainha, 27 Fevereiro 2009
Ontem, 1 de Abril, morreu de pé, nas Caldas da Rainha.

27 de março de 2009

Amigos de Peniche 3

A fatídica expressão "amigos de peniche" faz com que toda a gente evite apresentar um amigo penichense, como um amigo de Peniche. Normalmente, seguem-se explicações "ele é de Peniche mas não é um amigo de Peniche", etc, etc.

Mas temos uma resposta interessante de um médico penichense, a um colega seu que o picou, com uma pontinha de ironia, sobre o significado dessa expressão: "Olhe, meu caro, «amigos de Peniche» são uma cáfila de patifes que eu tenho encontrado por toda aparte, menos lá!..." (in Peniche na História e na Lenda de Mariano Calado, p.426).

26 de março de 2009

Amigos de Peniche 2

Em breve fará 420 anos que a armada inglesa desembarcou em Peniche, supostamente com a intenção de ajudar a defender o direito de D. António, Prior do Crato, à sucessão do reino, após a morte de D. Henrique. Porém, o desejo dos adeptos de D. António foram gorados pelo facto deste exército nunca ter desempenhado a função para a qual estava designado. Foi assim, segundo conta Mariano Calado em Peniche, na História e na Lenda, que surgiu a fatídica frase que assombra a hospitalidade e a honestidade do povo de Peniche.
Em Lisboa, os defensores de D. António, ansiando pela chegada do exército que deveria apoiá-los, comentavam: Então e os nossos amigos de Peniche, quando chegam? Os nossos amigos de Peniche por onde andam? Porque não vêm os nossos amigos de Peniche?
Quem os pode livrar de uma sentença imposta há quase meio milénio, mas que nada tinha a ver com os naturais de Peniche?
Ai! estes ingleses trazem cada trauma!

25 de março de 2009

24 de março de 2009

ESSES de Peniche

Cada terra com o seu uso, cada roca com o seu fuso.

Um dos doces característicos de Peniche são uns biscoitos em forma de esses. Adquiria-os nas pastelarias mas hoje foi-me desvendado um cantinho chamado BOINA VERDE, situado numa das ruas estreitinhas que ladeiam a Câmara (só de peões), que os tem deliciosos e fresquinhos.Outras iguarias, como os pastéis de Peniche, e as queijadas também aí são confeccionadas.
Parabéns a esta diligente senhora que se rendeu à qualidade, em vez de se deixar seduzir pela avidez do lucro fácil tão usual na venda de gato por lebre.

23 de março de 2009

Andorinhas nas Caldas

As andorinhas chegaram no dia de aniversário do Bordalo, dia em que o Museu Bernardo o homenageou através do olhar de novos artistas.





22 de março de 2009

Homenagem aos trabalhadores da Bordalo Pinheiro

Elas já se haviam anunciado, quando as expuseram, todas juntinhas, a fingir que esvoaçavam parede acima, na Galeria OGIVA, em Óbidos.
Pareciam trazer um tempo novo, mas como o espaço não as deixava levantar voo, só esvoaçaram as que não estavam presas à parede.
Foram e espalharam a notícia da Bordalo Pinheiro.
A loja da fábrica encheu-se de gente ávida de ter, ter, ter e ter um prato, uma peça, um azulejo, fosse o que fosse, mas o importante é que fosse Bordalo.
A estratégia funcionou, dizem. Mas afinal não foi suficiente e anteontem, por volta das 11h44m, as ruas das Caldas encheram-se de andorinhas brancas que traziam esta mensagem: Homenagem aos trabalhadores da Bordalo Pinheiro.
Elas ainda por aqui andam. Muitas ficaram coladinhas nos umbrais das portas. Outras meteram-se em pequeníssimos envelopes abertos de um lado e colados nas paredes, para que o transeunte atento retire um, leia e se associe a tão bela manifestação de solidariedade.
O promotor é um "autor desconhecido". A ideia é genial.
O papel branco que cada um pode levar para casa, a mim, cheira-me a trabalho de artista plástico. Parece-me ter vindo dos lados da ESAD, mas isto é só "um suponhamos".
Respeito o anonimato, mas não posso deixar de alertar para olharem para as paredes, para as portas, para as janelas e para os bancos da cidade.
Elas andam por aí! E os artistas plásticos também.
(Foto de Nelson Melo)

21 de março de 2009

Vidas d'aqui - 2

Rendizer a poesia

Encontrámo-nos no seu atelier.
Não sei descrevê-lo como gostaria porque ela é que me prendeu a atenção. Tenho na memória quadros, muitos, suspensos nas paredes. Eram retratos de ruas, de homens de Peniche, do porto, de flores, de recantos, de mar, de gaivotas e dois de rendas. Num, estavam as suas mãos a rendilhar sobre a almofada coberta de bilros e de renda. Outro era um naperon pormenorizadamente pintado, juntamente com uns búzios.
Havia tintas, pincéis, livros, poemas e uma almofada de bilros, em execução.
Havia também rendas encaixilhadas. Uma árvore, a cores, com extensas raízes. Uma caravela. E mais, muitos mais trabalhos, mas não recordo muito mais porque ela é que me prendeu a atenção.
Disponível. Evitou atender pessoas e telefones. Falou de rendas, de rendilheiras, do trique-trique dos bilros e da sua aprendizagem, desde os seis anos de idade.
Conheceu as amarguras das mulheres de Peniche que, em algumas épocas do ano, sustentavam marido e filhos, à custa de noites e dias debruçadas sobre a almofada, sentadas no chão.
Conheceu as oficinas e as escolas de sujeição à disciplina rígida quais as crianças estavam sujeitas.
Tornou-se mestra. Ensinou muitas mulheres e hoje é um dos sustentáculos desta produção artística, pela forma como se envolve na sua manutenção, defesa e inovação.
Ontem enviou-me uma renda e uma poesia, ambas da sua autoria porque “a nossa renda de bilros é também poesia”.
E eu agradeço, divulgando e agradecendo quanto tenho aprendido sobre Peniche e o ensino das rendas.
Meu coração bate, bate
como os bilros da almofada
e ao som do tric …tric
nasce em minha alma a alvorada.
brilham tanto os alfinetes
sobre o pique de açafrão,
que os seus pontos transparentes,
são nuvens de encantamento
que me enchem de emoção.

os bilros,
passarinhos esvoaçantes
deixam música no ar
em sons leves
sussurrantes,
aos ouvidos do luar.

Quem vê a renda surgir
tecida de leves fios
entrecruzados de esperança,
de marés vivas,
de sonhos,

de ondas brancas de espuma,
de sorrisos de crianças
embalados na maresia,
sobre o pique, na almofada,
verá por certo,
à tardinha
que, por milagre ou magia,
a renda de espuma branca
já não é renda,
“é poesia”
IDA GUILHERME

20 de março de 2009

Sagração da Primavera

Imagem retirada daqui

A Primavera é recebida hoje, às 11h44m, com uma Festa do Equinócio, no recinto amuralhado do Santuário Rupestre da Pedra da Cabeleira de Nossa Senhora, em Vila Nova de Foz Côa.

17 de março de 2009

Quase no Equinócio da Primavera

Quase no equinócio da Primavera, a Irlanda festeja hoje S. Patrício, o santo que este país adoptou como patrono e ao qual dedica o seu feriado nacional. Diz-se que foi ele que introduziu o cristianismo na Irlanda e destruíu o paganismo. Diz a lenda que ele conseguiu acabar com todas as serpentes existentes no reino, animal conotado com cultos pagãos.
Os irlandeses vestem-se de verde, promovem desfiles carnavalescos, comem carne de vaca e usam um trevo na lapela, neste dia. Não só em Dublin, mas também na Escócia, França, Espanha, Canadá, USA e em qualquer outra parte onde a comunidade seja significativa (http://www.nuitdelasaintpatrick.com/2007)

Mas, passando por cima destas manifestações exteriores, atentemos, na exuberância do uso do verde e, no facto de S. Patrício, segundo a hagiologia oficial, ter vivido numa gruta (ou buraco), na ilha de Derg, como se este sítio fosse um acesso ao Purgatório,segundo a crença cristã, ou ao mundo do Além, que, segundo os Celtas era um mundo misterioso de fadas.
S. Patricio é festejado em periodo pascal e associado a um outro mundo mítico - evidentes semelhanças com Cristo que procede à passagem da vida à morte e da morte à vida. Ele desce aos infernos
e dá aos homens a esperança de vida eterna.

Festa de Primavera, festa do equinócio e festa lunar, a Páscoa está intimamente ligada ao mito sazonal com diferentes significados sobrepostos, simbolicamente associada a "passagem". Na realidade esta festa é a passagem de uma estação a outra - do Inverno à Primavera.
Dá-se a ressurreição da Natureza. Dá-se também a ressurreição de Cristo.

S. Patrício não é festejado em Portugal, por isso, não conheço qualquer provérbio que lhe faça referência, mas em França existem, pelo menos, estes dois:
"Quand il fait doux à la Saint Patrice de leurs trous sortent les écrevisses"
"Sème des pois à la Saint Patrice tu en auras à ton caprice".

16 de março de 2009

Vidas d'aqui - 1

Há muito o via por Óbidos, sempre activo e atarefado, até que, chegou o momento de nos encontrarmos e falarmos.
Teve uma infância e uma adolescência riquíssimas de vivências e experiências.

Acompanhou os serradores que durante meses a fio cortaram os pinheiros do Bom Sucesso, que seguiam para Inglaterra, onde faziam deles, postes de comunicação.
Foi assim, muito novo, enquanto acompanhava o pai, que aprendeu a ler a idade, o peso e a medida das árvores.
Pescou à sertela e à fisga, na Lagoa de Óbidos.
Conheceu os caminhos de água que lhe ligavam as margens.
Conviveu com o Dr. Fernando Correia, um ilustre médico que escreveu sobre as Caldas, o Hospital e a Rainha D. Leonor. Com ele revia as provas dos seus livros antes de irem para a tipografia.
Conviveu com a criadora dos bordados de Óbidos.
Conheceu regatos e fontes de água límpida.
Conheceu os pássaros pelo chilrear.
Sabe descrever, com tanto realismo, como fazia miocadas, um isco feito com minhocas, que, mesmo quem nunca as tivesse visto, consegue imaginar como seriam.
Sabe jogos populares e regras.
Sabe fazer tapume e adobe.
Conheceu as salinas e os melhores valadores.
Conheceu os caminhos rurais, as feiras, os negócios, os hábitos, enfim… contou-me experiências e saberes que, mais uma vez, me alertaram para a importância de registar e guardar o que, inexoravelmente, se vai perdendo, e que faz parte de nós, do nosso património e da história do quotidiano.

Brevemente a MEMORIAMEDIA (e-Museu de Património Imaterial) virá registar tudo isto, com ele e outros companheiros seus.

http://www.memoriamedia.net/

24 de fevereiro de 2009

Carnaval

Cardadores - Vale d'Ílhavo - Foto de Afonso Alves
Os corsos carnavalescos são, segundo as televisões, a forma mais mediática de festejar o Carnaval. Ovar, Sesimbra, Mealhada, Loulé e Torres Vedras aparecem em todos os canais. Estas manifestações vão proliferando nas capitais de distrito que convidam as associações concelhias e os diferentes bairros para desfilarem, mas também em pequenas localidades, como, aqui tão perto, nas Gaeiras.
Potentes altifalantes vomitando música foleira transformam as cidades em espaços de onde só apetece fugir, mas as pequenas localidades não lhe ficam atrás. Hoje, Vale d’Ílhavo, por exemplo, abafou por completo o som das cardas dos cardadores e impedia qualquer diálogo entre os presentes, de tal forma o ruído musical era forte e estridente.
Nestes cortejos, o que é mais marcante é a crítica social e política e o desfile dos reis e rainhas, eleitos, designados ou, pura e simplesmente contratados e normalmente bem pagos para desfilar semi-desnudados, o que contribui para atrair multidões.
Esta prática é uma inversão total das raízes onde se inserem as tradições carnavalescas, o que me nada contribui para lhes retirar o brilhantismo que os responsáveis lhes querem dar.
Antigamente era eleito um bode-expiatório que assumia as culpas dos cidadãos e que, nesta época era escorraçado da cidade, libertando-a assim, de todas as faltas cometidas e restituindo-lhe o estado puro de que os cidadãos precisavam para continuar a viver. Na antiga Grécia o bode-expiatório, escolhido entre um mendigo, um prisioneiro ou um deficiente, era coberto de roupas solenes e percorria toda a cidade, para acarretar consigo todos os males e doenças. Se ainda há resquícios destas práticas entre nós, como a serração da velha, a queima do Judas, os testamentos e os roubos rituais, que se fazem em época carnavalesca, a eleição dos reis e das rainhas, não passa de outros tantos resquícios dessas práticas, mas agora, invertidas. Dá-se-lhes lugar de prestígio e honra, em vez de os escorraçar.

Assistimos também a uma prática recente que se generaliza. As escolas organizam os desfiles pelas vilas e cidades, institucionalizando o que antes era espontâneo. Mas também isso não tem importância nenhuma para a compreensão do carnaval e para a sua manutenção.

É importante frisar que nenhuma festa é imutável mas também nenhuma obedece a uma lógica cartesiana. Elas variam, modificam-se, adaptam-se e organizam-se diferentemente, segundo o tempo e o lugar.
As festividades hoje contêm memórias das crenças e de hábitos que lhes deram origem e que estão essencialmente ligadas à agricultura e à relação do Homem com a Natureza, mas, por vezes, transformam-lhes o sentido e elas passam a conservar apenas o aspecto plástico, sem o seu significado. É o que acontece hoje, com muita frequência.
Vem no decorrer desta perca de sentido, o uso do báculo com o sol e com a lua. O rei das Gaeiras apoiava-se num símbolo solar e a rainha, num lunar.
Aí temos os marcadores do dia e da noite e o desejo de ver aparecer, nesta altura, a luz que propiciará as sementeiras. No entanto, o seu sentido desapareceu.
Registe-se, no entanto, a sua presença.

14 de fevereiro de 2009

S. Valentim

A 14 de Fevereiro comemora-se, não um, mas cinco santos que têm em comum o facto de se apelidarem Valentim. Só a um deles é atribuída a faculdade de ter escrito cartas de amor e, por conseguinte, é graças a ele que o comércio se enche de corações inflamados, que aos restaurantes afluem pares amorosos e que as floristas esgotam os stocks das mais belas rosas.
O S. Valentim, que repousa em Madrid, na Igreja de Santo António, cuja eloquência cupidiana terá seduzido os jovens apaixonados, é que reclama ser o “patrón de los enamorados” , conforme atesta o seu túmulo, onde se exibe a sua caveira.
Ora, não será por acaso que a caveira se torna o elemento mais ostentatório, pois sabe-se que tanto este mártir como todos os outros foram decapitados, tal como acontecia aos deuses que na Primavera eram decapitados, para em seguida ressuscitarem, como a natureza que floresce e renasce.
Inserir o culto a este santo em rituais de transição entre o Inverno e a Primavera é algo que se ajusta à compreensão da existência de um mito, que os rituais ainda sustentam.
A festa a S. Valentim tornou-se, hoje, numa festa urbana , alheia a qualquer iniciativa da igreja católica e mesmo à margem do meio rural. Porém, não será demais relembrar as práticas de enamoramento que ainda persistem como o dia das amigas (ou dos amigos), os acordos de parentesco, por exemplo de madrinhas e padrinhos, ou os contratos temporários de acasalamento, através dos “ganchos”.
“Queres ser meu gancho?”
E então, rapaz e rapariga, faziam um elo, uma argola, um gancho, como o dedo indicador das suas mãos direitas, enfiando um no outro, para selar o contrato . Mais tarde procedia-se ao ritual da troca de prendas.
No fim de contas, o importante é a ruptura temporal a que estes rituais obrigam, propiciando o encontro, o convívio e, porque não? Dando um ar mais florido e alegre às vilas, às cidades e até às nossas casas.

(texto ligeiramente adaptado do publicado no DN a 7 de Fevereiro)

Dia dos namorados

BELA D­ ‘AMOR

Pois essa luz cintilante

Que brilha no teu semblante
Donde lhe vem o splendor?
Não sentes no peito a chama
Que aos meus suspiros se inflama
E toda reluz de amor?

Pois a celeste fragrância
Que te sentes exalar,
Pois, dize a ingénua elegância
Com que te vês ondular
Como se baloiça a flor
Na primavera em verdor,
Dize, dize: a natureza
Pode dar tal gentileza?
Quem ta deu senão amor?

Vê-te a esse espelho, querida,
Ai vê-te por tua vida,
E diz se há no céu estrela,
Diz-me se há no prado flor
Que Deus fizesse tão bela
Como te faz meu amor.

ALMEIDA GARRETT

13 de fevereiro de 2009

Sexta-feira, treze

O número 13 deu que fazer à imprensa, às rádios e às televisões. Movimentaram-se todos para arranjar explicações para este dia azarento.
Procuraram rituais que alimentam a superstição, dando, assim, continuidade ao mito e incentivando o aparecimento de outros.
Não falaram no 12, nem no sábado. Ora o 13 azarento não existiria se o 12 não fosse visto como um número perfeito e a sexta azarenta, não existiria se não abrisse a porta para o Sabat.

9 de fevereiro de 2009

Os Gaidufa

Foto de Maximino Alves Martins
Ora se antigamente o gaiteiro acordava a aldeia, pela festa de Santo André, no Arelho, o que é que nos impede de voltar a ouvir o som da gaita de foles, logo pela manhã?, pensou Maximino.
O tocador que vinha dos lados de Torres Vedras já terá desaparecido, mas com um pouco de entusiasmo consegue-se cativar algum dos músicos das bandas. E conseguiu, em A-da-Gorda. Contratou o mestre e músico bem conhecido na zona, o Quitó. Deu-lhes o nome de GAIDUFA - Gaiteiros da União Filarmónica de A-da-Gorda e eles aí estão. Já actuaram na festa de Santo André e actuam sempre no Mercado Medieval. São três, a conta que Deus fez, dizem alguns, para darem um final feliz a uma boa e bem sucedida iniciativa.

S. Brás, em Montes, Trancoso

As mocas dos homens

"Homem que é homem – segundo ditos de outros tempos - tem de entrar com uma moca ao ombro, fosse ela grande ou pequena..."in Notícias de Vila Real, Fevereiro, 2007.
Fotos cedidas por RIBEIRO AIRES, a quem agradeço a gentileza.

5 de fevereiro de 2009

A sereia e a gancha do macaco

Dá cá o pito; toma lá a gancha
É um tema bem glosado aqui:
http://cocanha.blogspot.com/2008/01/dar-o-pito-para-receber-gancha.html
Agradeço a Zazie a oportuna observação.

S. Brás em Trancoso e no Brasil


S. Brás festeja-se numa pequena aldeia do concelho de Trancoso, Montes, tal como na Nazaré. Como refere o Notícias de Vila Real: "Homem que é homem – segundo ditos de outros tempos - tem de entrar com uma moca ao ombro, fosse ela grande ou pequena, preparada em casa ou arrancada no monte, ali à entrada do recinto, não fosse o diabo tecê-las, como noutros tempos, às vezes, acontecia, por «tralhas ou por malhas». Em Vila Real, substitui-se a moca por uma gancha, mas ambas vão dar ao mesmo: rituais de enamoramento e sedução, com a presença de símbolos fálicos.
Curioso é ver que no mesmo dia, na localidade de Trancoso, Bahia, Brasil, se festeja o mesmo santo e, note-se, com uma missa onde se benzem as gargantas.

4 de fevereiro de 2009

Ganchas de S. Brás

Ganchas de S. Brás é um chupa-chupa em forma de gancho que se vende na romaria de S. Brás, em Vila Real. Chupa-se este interessante doce que uns dizem ser a iconização do báculo de S. Brás, outros qcham que é um apetrecho para desentupir a garganta... já que S. Brás é o orago da garganta.

Mas este doce é também um presente que as moças oferecem aos moços que pela Santa Luzia lhes ofereceram os pitos. É um ritual de trocas que se inicia pela Santa Luzia, a 13 de Dezembro, e que agora se dá por concluido, precisamente quando termina o ciclo natalíco e começa o carnavalesco.

Rapazes e raparigas divertem-se com as ganchas, arrebitando-as para baixo ou para cima, conforme a intenção que preside à brincadeira.

Associado a este ritual há o facto de se cantarem umas quadras que condizem com estes gestos de sedução mútua:
Eu vou ao S. Brás
De cu para trás
Comprar uma gancha
pr'ó meu rapaz
Eu vou ao S. Brás
de cu para a frente
Comprar uma gancha
Pr'á minha gente

Eu vou ao S. Brás
De cu para o lado
Comprar uma gancha
Pr'ó meu namorado
(Foto retirada de um desdobravel distribuido pela Região de Turismo da Serra do Marão, da autoria de Juvenal Cardápio)

3 de fevereiro de 2009

Gargantua e S. Brás

Quis Rabelais que o seu gigante Gargantua nascesse no mesmo dia em que se celebra S. Brás.
A garganta de que S. Brás é protector ou a garganta de Gargantua é simultaneamente o lugar da palavra, o lugar da absorção dos alimentos, o lugar por onde circula o sopro vital e também o elemento que nos renvia ao lobo divino, ao homem-lobo que governa os ciclos do Tempo e as liturgias sagradas de Carnaval.
Não é por acaso que Rabelais fez vir à luz deste dia o seu Gargantua que, sem dúvida, está inscrito na tradição carnavalesca.

E não vos melindreis, ó vós que ledes,
Que nenhum mal contém, nem perversão.
É verdade que pouca perfeição
Salvo no riso, aqui podeis obter:
Outra coisa não posso oferecer,
Ao ver as aflições que nos consomem;
Antes risos que prantos descrever,
Sendo certo que rir é próprio do homem.
VIVEI ALEGRES.
3 (Rabelais, 1986 p. 39)

Carnaval da Nazaré

No dia de S. Brás, olha o Inverno que faz. Se está para a frente ou se está para trás.

S. Brás é festejado no campo, preferencialmente em bosques e pinhais, dado que ele é protector dos pastores, Senhor das chuvas e das águas, mas também preside às sementeiras da Primavera.
Por ter salvo uma criança engasgada, tornou-se protector das gargantas. E, por se ter refugiado numa caverna, tornou-se o interlocutor privilegiado dos animais.
S. Brás concentra uma série de motivos míticos essenciais para compreender o mito do Carnaval, desde o seu nome que, em bretão significa lobo, até ao facto de ter uma vida equiparada à dos animais selvagens, vivendo nessa caverna como o urso dos contos e das lendas.

Quem passar pela Nazaré, notará um frenesim pouco habitual em época invernia e aperceber-se-á que todos os caminhos vão dar ao monte de S. Brás. É, para alguns, um carnaval antecipado, mas para os Nazarenos é o início dos festejos. Só à noitinha regressam a casa, para logo a seguir, fazerem o primeiro dos quatro bailes obrigatórios, antes da terça-feira gorda.


S. Brás, Nazaré, 2007

2 de fevereiro de 2009

Natal acabado, Venha o Carnaval

Na noite de 1 para 2 de Fevereiro, precisamente 40 dias após o nascimento do Menino, fazem-se procissões com velas acesas (ou candeias), homenageia-se a Senhora das Candeias ou da Purificação e em muitos locais, como em Moura, come-se o boi do povo.
Segundo a mitologia cristã o Menino é apresentado no Templo de Jerusalém pelo santo velho Simeão, acto ritual de purificação da Senhora.
Durante a Idade Média estas procissões faziam-se pelos campos, num apelo à fertilidade e purificação da terra, que em breve receberia as sementes.
Fevereiro assinala o início das Lupercálias, em Roma e, segundo a mitologia celta, marca a festa de Imbolc, em honra da deusa celta Brígida,protectora dos rebanhos. Era nesta data que se celebrava o nascimento dos cordeiros e o regresso do leite das ovelhas.
Estas festas foram cristianizadas, mas os actuais rituais ainda deixam antever a importância do dispositivo mitológico antigo.
Esta data assinala também o meio do Inverno, daí adivinhações representadas em provérbios:
Se a Senhora das Candeias chora, está o Inverno fora;
Se a Senhora das Candeias ri e chora, está o Inverno meio fora;
Se a Senhora das Candeias rir, está o Inverno para vir.
Ou seja, se não chover o Inverno está para vir, se chover o Inverno já passou. Se estiver ora sol ora chuva, ainda aguentaremos mais uns diazitos de Inverno.