29 de junho de 2011

Teatro Imediato na Prisão

A prisão é um lugar particular. Muito particular. Tudo parece altamente vigiado, mas todos aprendem a escapar  a essa vigilância.
Os que visitam os reclusos têm um tratamento, como se fossem suspeitos. Tratam-nos com indelicadeza, sem um "obrigada" ou um "faz favor". Acentuam permanentemente "não pode isto... não pode aquilo" e berram-lhes ordens absolutamente indiscutiveis.
Lá dentro deve ser semelhante, mas há coisas que alguns reclusos apreciam e aproveitam, como a passagem do Teatro Imediato pela prisão. Respiraram mais fundo e até parece que o ar se tornou mais leve.                     

28 de junho de 2011

Maratona - Restaurante nas Caldas

Ter um restaurante, nas Caldas da Rainha, como o MARATONA é um privilégio. Dizer que se come bem é relativo, dizer que o serviço é eficiente, competente e delicado poderá também ser relativo, mas vale a pena. Agradam-me a inovação, as iniciativas e o empenhamento. Há uns tempos fez, a exemplo de alguns restaurantes europeus, uma modalidade em que o cliente pagava, segundo o que comia, segundo o que a sua consciência lhe ditava. E agora festejou o seu aniversário, animando o parque com uma noite inspirada em Alice no País das Maravilhas, com um programa de encantar e com delíciosas propostas gastronómicas.
                  

6 de junho de 2011

O pão d'Inês


Inês Milagres criou um tipo de pão - o pão sardinha e o pão bacalhau - que foi lançado no  Restaurante Antero, mais conhecido por Pachá, nas Caldas da Rainha, e que está a ter um sucesso extraordinário. A Inês é criativa, gosta de cozinhar e de mexer com as nossas tradições alimentares para lhes acrescentar mais um temperozinho e novos sabores.
Vamos reencontrá-la, em Óbidos, no Junho das Artes. Como food designer, é uma das artistas convidadas e os eu trabalho terá por título Fitológica da Batata.

4 de junho de 2011

Há certas lojas onde apetece não mais voltar

Tem ginja? Perguntou o cliente com pronúncia marcadamente brasileira. Viu-se que sabia ao que vinha. Não hesitou nem olhou as muitas garrafas que existem nesta garrafeira onde também eu me encontrava, na mais movimentada rua de Óbidos, e avançou com a marca da tal desejada ginja. 
Não aprecio ginja. Nem estava ali à procura de ginja, mas a minha presença estava relacionada com esta bebida. Procurava a sua feitora, a menina, agora senhora, que herdou do seu avô o gosto pelas alquimias. Ela não estava. E ainda bem. Não teria gostado de ouvir o comentário do empregado que não tinha a tal ginja que o cliente procurava e que se resume nesta verborreia palavrística: essa é uma ginja que tem o dobro do preço da nossa. 25€! E sabe a xarope. Sabe a remédio. É intragável. 
Podíamos ter ficado por aqui, mas não ficámos. Insurgi-me com o que ouvi e que achei, pelo menos, de mau gosto mas, sobretudo, indelicado e pouco profissional. E deixei esta minha opinião.
Finalmente despedi-me com um certo desejo de ir à garrafeira ao lado, procurar a tal ginja que sabe a remédio.

3 de junho de 2011

Dia da espiga

Há poucos anos ainda, a tarde da quinta-feira da Ascensão era sagrada. Ia-se ao campo buscar a sorte no futuro, bem florido e colorido - papoilas, trigo, oliveira e flores amarelas faziam parte do ramo a que se chama a espiga. Agora, a espiga vende-se nas cidades e satisfaz as necessidades dos citadinos. Caldas da Rainha não é excepção. A praça também se enche de espigas, festejando a Primavera, augúrio de felicidade e abundância. Que assim seja!

29 de maio de 2011

QUANDO ELE FOI NINGUÉM

Ele chegou aqui, não posso dizer zangado, mas, talvez, indignado. Não posso assegurar que seja mesmo indignado, porque nos pareceu meio espantado e, sem explicar, não parava de repetir, nem podem imaginar o que me aconteceu! Nem imaginam… não sei como isto me pôde acontecer! E gesticulava, mantendo um olhar no infinito, talvez reflexivo ou interrogativo. Sei lá!
A nossa curiosidade tornou-se inquietação e insistimos para que contasse a estória ou a coisa, sei lá!
Achámos, ainda, que estava quase lívido e de rosto, por vezes, crispado, enquanto agarrava um girassol com raiz e tudo, que, coitado, em breve estaria murcho, com aquela gesticulação toda. Quando já nos estava a irritar demasiado, gritámos para que começasse o relato.
E começou: Sabem o que é sentir que não existo? Eu não existi, hoje. Eu não consegui provar que eu era eu. Fui à prisão. Como é hábito, pensámos nós. Todos sabemos que ele lá vai uma vez por mês. E então? Pois então, aconteceu o inconcebível, cheguei lá sem nenhum documento. E sublinha “nenhum”. E repete “nenhum”. Ficou tudo esquecido, algures, num cafezito onde parei.
E então? E então o guarda disse-me logo: Você está ilegal. Pois estou, disse eu, mas por favor, não me prenda. E disse que eu não podia fazer a visita habitual. E eu compreendi que ela tinha razão, mas insisti e disse que muitos guardas me conhecem porque eu sou visita do recluso número tal e eu sou a única visita que ele tem e com boa vontade chamavam-se aqueles dois ou três guardas que nos revistam à entrada e eles faziam prova de que eu sou eu e, de facto, não tenho fotografia, mas tenho a minha cara que diz que eu sou eu e também não tenho nenhum documento, mas tenho a minha palavra que prova que eu sou eu e não estou a mentir porque o meu nome é esse que está aí autorizado a entrar e esse nome é meu e eu é que tenho esse nome. Mas não resultou.
Então pedi para me darem o livro de reclamações só para dar conta da minha indignação pela falta de flexibilidade, porque eu bem sei que estou numa prisão de alta segurança, mas conhecem-me, bolas, sabem que eu sou eu e não um eu com outro nome ou com outra cara. Eu sou eu! E repeti o meu nome.
E então recusaram-se a dar o tal livro porque eu não posso provar que eu sou eu e os livros de reclamação só se dão a quem se identifica. E eu disse outra vez o meu nome e o número do meu B.I. e o meu NIF e a minha morada e a minha naturalidade e a minha filiação e o meu estado civil e eles não acreditaram e, ainda por cima, não podia conduzir, porque eu podia não ser o dono do carro e até podia estar a roubar o meu próprio carro e ainda por cima, sem carta de condução. Eu até lhes mostrei os documentos do carro com o meu nome, mas os documentos não têm fotografia e, portanto aquele nome podia não ser o meu. Eu insisti e pedi que me tirassem uma fotografia para eu pôr ao pé dos documentos para provar que eu sou eu. E até tive tempopara associar esta guerra ao Nome de Guerra  de Alamda Negreiros, onde ele diz que "proceder como anónimo é contra as regras do jogo". Vi-me como um anónimo em terra conhecida e por entre gente conhecida e tive medo que me prendessem e então escapuli-me e apanhei este girassol que agora até já está um bocadinho murcho.
Depois ainda pensei na Ana Paula Guimarães que assegura que: ... a integração social pressupõe a necessidade de um nome, civilmente o ser só existe depois do nome dado, como se fosse ele a fecundar o homem de sociabilidade, a ligá-lo a uma memória e a organizar a existência humana numa teia de relações. Mas lá na prisão as coisas não funcionam assim e eu percebi claramente que não chega ter um nome, como diz a Ana Paula. É preciso provar que o nosso nome é nosso, coisa que eu não consegui e aí até percebi que não existia e percebi também que os papéis são mais importantes que o meu próprio nome porque, na verdade, só eu é que posso acreditar que o meu nome é meu. Os outros todos podem desconfiar.
Vou reler Nós e os nomes em NÓS DE VOZES Acerca da Tradição Popular Portuguesa, de Ana Paula Guimarães e, se não for muito ofensivo, ofereço uma cópia ao guarda que me impediu de entrar na prisão e a quem eu pedi para escrever o meu nome num papel e para mo colar no casaco, com um carimbo da prisão para que, lá dentro, no meio dos guardas, dos reclusos e das famílias, ninguém duvidasse que eu era eu, mas ela disse que depois faltava a fotografia e quando eu lhe disse que ia buscar a minha máquina fotográfica para me fotografar e assim já podia mostrar a minha fotografia a quem duvidasse, ela disse que a máquina não podia entrar na prisão.-

25 de maio de 2011

O SENHOR LUÍS DO QUIOSQUE - Bairro Azul

Coisa boa é o contacto com o pequeno comércio, quando vendedor e cliente estabelecem uma relação que lhes permite conversar, ter confiança mútua e até, algumas confidências.Acontece, com frequência, no Bairro Azul.
O Senhor Luís do Quiosque vende o jornal, mesmo ao cliente que não traz dinheiro consigo; empresta a revista a quem quer ir tomar um cafezinho e folhear as notícias de casamentos, escândalos e divórcios; guarda-nos as compras quando necessário e até dá as notícias do dia. É afável, conversador, pescador e de uma curiosidade permanente. Consulta mapas e o atlas para situar a notícia de países distantes.
À hora de fechar,  carrega consigo tudo o que possa atrair a mão e o olhar alheios que, despuradamente, já algumas vezes lhe fizeram grandes estragos.  Como "mais vale prevenir do que remediar", o Senhor Luís do Quiosque, ao fim do dia, carrega até casa o tabaco e na manhã seguinte, bem cedo, recomeça.
Faz-nos companhia, O Senhor Luís!

24 de maio de 2011

REGRESSO II

Hoje é dia de recomeçar.
É dia de terminar com a dor provocada pelo bambear entre o querer e o não fazer.
É dia de ouvir a frase da Agustina:
"O país não precisa de quem diga o que está errado; precisa de quem saiba o que está certo."

in Público 23.05.2011

22 de setembro de 2010

TODOS - CAMINHADA DE CULTURAS - A VÓS

A Vós é peça de teatro idealizada por Ainhoa Vidal e interpretada por vários actores, entre eles a Mafalda Saloio.
Diz-se avós, a voz, a vós, sempre igual, com o mesmo som. E pensa-se coisas diferentes. E recebe-se tanta coisa, quando se vê este espectáculo a que os seus autores quiseram dar este ambíguo nome. Foram buscar avós que frequentam centros de dia, na zona do Martim Moniz e deram-lhes voz. Ouviram-nos. Saborearam as suas estórias. Recriaram-nas e entregaram-nas a nós.
Foi, integrado no Festival TODOS Caminhada de Culturas, nos dias 17, 18 e 19, num antigo edifício, em reconstrução. Começaram na rua, com mezinhas, com superstições rezadas tantas vezes pelos nossos avós. Levaram-nos para esse edifício que eles encheram de memórias. Ouvimos os postais de parabéns, dos nossos avós. Vimos os cuidados que netos e avós se dedicam mutuamente. Assistimos a um banho, simbolicamente, dado a uma jovem de branco, por uma avó rural, de negro vestida porque, como diz o programa, A Vós é um espectáculo sobre a transmissão e a passagem de testemunho. Uma ponte entre quem está prestes a partir e quem vê a sua vida ganhar um passado e um futuro.
É uma vivência extraordinariamente bela, humana, comovente e genial.
A Mafalda já tinha tido experiência semelhante em Palmela. E aqui revelou-se, mais uma vez, grandiosa, na sua forma me nos encantar com o corpo, a expressividade, os gestos, o sorriso e tudo o mais que se torna indizível, mas bem visível aos olhos e ao coração, com a avó Esmeralda sempre presente.




8 de setembro de 2010

Desperdício à CP

DESPERDÍCIO À CP

Concordo inteiramente com a crítica que Carlos Cipriano faz, na Gazeta das Caldas, de 23 de Julho de 2010, à política de desperdício da CP - A CP continua a promover idas à praia em viagens longas e com transbordo. É que gastar dinheiro em folhetos que vendem promessas enganosas é um desperdício. Ir das Caldas a S. Martinho, diz Carlos Cipriano “pode, de facto, ser uma boa alternativa”, mas não o é no mês de Agosto, precisamente quando a CP nos incita a utilizar os seus ineficazes serviços. Quem deseja aproveitar a vantajosa situação das estações de Caldas e S. Martinho – a primeira, no centro da cidade e a segunda, a 100 metros do mar – e dar um passeio nas óptimas passadeiras dunares e regressar antes da grande enchente não pode confiar na CP. Em tempo normal, quer dizer, fora de férias, o passageiro apanha o comboio das 8,31 e, dentro de 13 minutos, está na praia, sem canseiras e sem provocar poluição por sua própria conta, como faria com a sua viatura. Regressa, tranquilamente, às 10,09, numa viagem super agradável de poucos minutos. Nessa altura, o comboio é pontual. Os passageiros são pouquíssimos. Rapidamente descem uns e sobem outros e “lá vai o comboio, lá vai…”
Mas no Verão tudo isto se transforma. O comboio que deveria partir das Caldas às 8,31h aguarda 10, 15, 20 minutos ou mais, que se esgote a fila de utentes para adquirir bilhete. Com apenas um funcionário (suficiente em tempo de acalmia), a bicha prolonga-se com dezenas de pessoas desesperadas. No regresso, a mesma coisa. O comboio que deveria passar por S. Martinho a recolher os passageiros às 10,09h, passa quando pode.
Por conseguinte, em tempo de Verão, a CP faz-nos desperdiçar o nosso tempo, aguardando nas estações de Caldas e S. Martinho mais de 40 minutos, num percurso de ida e volta de 23 minutos e rouba-nos o tempo de descanso. Em vez de chegar às 8,11 a S. Martinho, chega por volta das 8, 45. Com atrasos de 30 minutos, numa viagem de 13 minutos e de poucos quilómetros a CP não chega a lado nenhum, nem os tais panfletos servem para nada!

30 de agosto de 2010

A Gazeta das Caldas de 20 de Agosto, pg. 18 e 19, noticiava a morte de Figueiredo Sobral, artista plástico, que conviveu, nas Caldas da Rainha com a reduzida, mas significativa, comunidade artística desta cidade, havendo, ainda, no Inferno da Azenha, um mural da sua autoria. Muita gente se recorda dele, das festas que dava em sua casa, nomeadamente um casal caldense com quem me cruzei, conversando sobre a obra de Armando Correia.
Nessa altura, há talvez uns três meses, tentaram eles, seus amigos, indagar do seu estado de saúde e então soubemos que não seria possível conversar com ele, precisamente sobre o período em que o Armando trabalhou com e para ele, porque tinha perdido a fala havia poucos dias. Mais uma memória que o tempo me impediu de registar. Mas, falar das pessoas, através dos seus amigos e conhecidos, é, sem dúvida, conhecê-las também. À fraca recordação que me restava de Figueiredo Sobral, juntaram-se episódios por ele vividos, sempre controversos, as suas piadas, as peripécias com amigos e companheiros de trabalho, descrições das festas na Rua Leão Azedo e tantas outras curiosidades relacionadas com os seus clientes e com os materiais que usava, incluindo as técnicas inovadoras que trouxe para trabalhar o ferro. A isto se referiu, por exemplo, o Renato, entretanto desaparecido.
Na altura, também tive oportunidade de falar com quem, por feliz coincidência, se cruzou com uma camioneta que descarregava num caixote do lixo, material que lhe chamou a atenção e o fez parar. Era o resto de tudo o que havia sido abandonado na casa onde residira Figueiredo Sobral. Livros, esboços, pinturas, jornais e muita tralha, tudo havia sido considerado lixo por alguém, certamente, desconhecedor destas preciosidades, de imediato valorizadas por alguém mais sensível que, a tempo, ainda resgatou algumas do fogo e do caixote .
Das notas que fui recolhendo, escrevi, talvez em Maio deste ano, o pequeno texto que agora acho oportuno inserir neste blog.

Nos finais dos anos 60, e até metade da década de 70, havia na Rua Leão Azedo três ateliês pertencentes a Figueiredo Sobral. Eram eles de cerâmica, de tapeçaria e de metais.
As encomendas eram muitas e vinham quase todas do estrangeiro, sobretudo dos Estados Unidos da América. Quando chegavam os pagamentos das obras, havia convívios, que Figueiredo Sobral e a sua esposa, Quina Sobral, também pintora, partilhavam com muitos amigos.
Festejava-se e comia-se do melhor.
A nata da comunidade de intervenção vinha diligente e sem alarido, até às Caldas. Carlos Paredes, Natália Correia, entre outros, eram assíduos. Os bonecos de Santo Aleixo também para lá eram chamados e faziam o seu papel de bonecreiros descarados.
Com o 25 de Abril tudo começou a acabar. O grande promotor dos ateliês e das festas partiu para o Brasil, atrás dos clientes. Partiu de barco pelo horror que tinha a aviões. Partiu e deixou tudo, diz quem sabe e viu. Ficou a casa mobilada e grande espólio e acervo de obras e rascunhos. Entretanto, tudo desapareceu. Quase tudo. Houve alguém que conseguiu livrar da fogueira alguns apontamentos e algumas relíquias.
De Figueiredo Sobral, directamente, nada mais podemos saber. De há umas semanas para cá, perdeu a fala, não reconhece ninguém e de nada se lembrará. Fica, assim, uma estória interminada à qual só se poderão acrescentar contributos, de quem com ele conviveu, nomeadamente da pequenita que acompanhava o pai aos ateliês e às festas e que tinha a sorte de receber, pelos anos e pelo Natal, miniaturas feitas pelo artista ou pela Quina. Hoje, com mais de 50 anos, ela lembra esses tempos como tempos de deslumbramento e êxtase.

25 de julho de 2010

Caldo de cultura da alimentação

Todos os municípios promovem semanas gastronómicas, reclamando, cada um deles a legitimidade da patronagem de determinado prato, de determinado doce ou de qualquer outra confecção. É tradicional daqui, dizem uns. É a nossa tradição, dizem outros.
Na base de tais afirmações, está, frequentemente, uma crua ignorância sobre cozinhados e alimentação. São os políticos que, normalmente, se arrogam defensores deste e daquele prato, com o intuito de prestigiar a região ou de acirrar os vizinhos que também eles se consideram legítimos proprietários da mesma iguaria.
Fazem-no porque são políticos e, com frequência, desconhecedores das viagens que os alimentos fizeram (e fazem) ao longo dos continentes e dos tempos e sem se darem conta que a gastronomia é um processo em curso, em permanente construção.
Apesar de saber tudo isto, surpreendi-me com o testemunho de um presidente de uma junta de freguesia do concelho das Caldas da Rainha, que afirmou hoje mesmo, a uma rádio local, num programa intitulado Voz da Região, o estranho caso da descoberta da origem do cozido á portuguesa: “O cozido à portuguesa teve origem precisamente nas Caldas da Rainha, mas fazia-se com grão. O cozido à portuguesa é caldense”.
E pronto. Está dito. O cozido à portuguesa, afinal, deveria chamar-se “cozido à caldense”.

23 de julho de 2010

O que são comportamentos estranhos

Num recente noticiário, um psicólogo alegava que o presumível matador de Torres Vedras já tinha há muito comportamentos estranhos.
Os vizinhos apercebiam-se que ele era estranho - andava em carros caros. Tinha uma casa bizarra. Acompanhava com jovenzinhos. Tinha uma caterva de câmaras de segurança e visionamento à volta da casa. Publicava vídeos visionários.
Era estranho, portanto.
E nada se fazia para se descobrir a razão de tanta estranheza ou bizarria.
Há muita gente que anda em carros ricos, tanta outra que acompanha com jovens ou que publica tal género de vídeos. Não é por isso que é investigada. Na verdade, não há regras nem limites para considerarmos isto ou aquilo estranho. A indignação é que leva a classificar a coisa ou alguém de estranho.
Para mim, é estranho o que ouvi há pouco, num banco.
A menina dirigiu-se ao balcão e assegurou à funcionária que o seu cartão havia sido engolido numa máquina, quando pretendia levantar dinheiro. Os funcionários desse banco não lhe haviam restituído o cartão, por uma questão de segurança, apesar de ela se ter identificado. Enviaram-na para ali, para aquele banco que havia emitido o seu cartão. A funcionária confirmou o estranho caso desses funcionários, como normal e perfeitamente dentro das regras.
O cartão ficou automaticamente cancelado e a jovem não poderia já usá-lo, apesar da razão do engolimento ser da responsabilidade de uma inesperada avaria da máquina. Teria, pois, de fazer o levantamento naquele banco onde eu estava e, inevitavelmente, tive de ouvir a conversa. Mas, para isso, teria de pagar um cheque. A menina insurgiu-se e alegou a injustiça da medida. Que eram regras, contrapôs a funcionária. Que era injusto e que queria reclamar, contra argumentou a menina. E reclamou. E a funcionária chamou o gerente. E o gerente confirmou que a menina tinha de pagar o cheque porque eram as regras do banco. E a funcionária fez-lhe um certo olhar e ele olhou para a reclamação e então ele disse:”levante lá o dinheiro e pronto. Não paga nada”. E a menina recebeu o dinheiro e a funcionária disse que, então retirava a reclamação e a menina disse que não, que não retirava, que mantinha. E manteve.
Pareceu-me estranho este olhar entre funcionária e gerente e muito mais estranha, a decisão do gerente, infringindo as regras do banco. Mas, o que diria o psicólogo se visse a forma solícita como a funcionária passou a tratar a menina e o desejo estampado no rosto e no gesto das mãos que se preparavam para rasgar a queixa da cliente?
É, pelo menos, estranho. Investigue-se por que razão se passa tão rapidamente de um comportamento inserido nas regras de bem-fazer, para as regras de bem atender os clientes.

22 de julho de 2010

Semana Internacional das rendas de Bilros

Começa hoje e prolonga-se até dia 25, a Semana Internacional de Rendas de Bilros, em Peniche.


Será feita a apresentação e o lançamento de AMAR PENICHE, da autoria de IDA GUILHERME.


21 de julho de 2010

Pedro Malaquias

Todos os dias são dias para ouvir Pedro Malaquias na Antena 2.
Todos os dias ele faz três abordagens às notícias do dia.
Aparece mais ou menos às 7,30; mais ou menos às 8,30 e mais ou menos às 9,30.
Todos os dias, normalmente, depois da hora certa.
Todos os dias, excepto fins-de-semana e feriados.
Diz João Almeida, o locutor, que ele apresenta a leitura dos jornais. Eu direi que ele apresenta uma variada e comentada leitura das pequenas notícias do dia. Logo na primeira crónica, refere as grandes, as inevitáveis, embora, sempre com uma certa subtileza, mas sempre acompanhadas de um cheirinho das que fazem a espuma dos dias. Das que não fazem sururus nos grandes corredores.
A seguir, continua na linha da referência a uma das que é vista pelo conjunto dos jornais, abordando com mais profundidade uma ou outra que escapa ao leitor das parangonas. E, finalmente, traz ainda outra, escrita à margem, para se/nos interrogar sobre o insólito, o mesquinho ou a estupidez.
Ele relata o que lê. E bem! Ele escreve o que lê. E bem! Ele lê o que escreve! Mas com que maestria!
Hoje, na sua última intervenção leu o que escreveu sobre a notícia do jornal I, segundo o qual e com base em investigações feitas num qualquer centro de investigação, os feios são mais criminosos do que os ricos. Mais ladrões e mais homicidas!
Esta investigação terá começado quando um criminoso, ao ser interrogado sobre o seu comportamento, responde ao juiz, por que faz do crime o seu modo de vida: por ser demasiado feio para ser admitido em qualquer emprego.
Oiça-se o final da crónica, mais ou menos descrita desta forma: pegue-se numa beldade universal, vistam-se-lhe fatos andrajosos; desgrenhem-se-lhe os cabelos (sujos, sujíssimos, de preferência!); evite-se-lhe o banho durante uma semana; deixem que as unhas ganhem o tempero da terra … ah! E retire-se-lhe todo e qualquer vestígio de maquilhagem.
Veja-se agora no que dá.
Nota à margem: Sou fã desta forma de comentar as notícias, tal como Francisco Mateus, o que não me impede de dar a ver outra opinião que considera os comentários do "Sr. Pedro Malaquias" "saloios e entediantes".

20 de julho de 2010

Gazeta das Caldas

Sempre que a minha vida profissional me leva para o Norte, para o Sul ou para as ilhas, o primeiro gesto que tenho ao chegar é procurar o jornal da terra, a agenda cultural e as iguarias que são consideradas identitárias da região - os doces, os vinhos, os queijos, os enchidos, as sopas e outros pratos.
E assim alimento a minha solidão.
Obviamente que leio os jornais da região onde vivo e estendo o meu interesse até Leiria e Santarém (gosto de O Mirante, por exemplo).
Leio a Gazeta das Caldas semanalmente, de ponta a ponta (exceptuando os relatórios da Assembleia Municipal). Ultimamente tenho apreciado especialmente o excelente trabalho intitulado Uma Empresa, Várias Gerações, iniciado em meados de Maio. A Gazeta tem-nos trazido um percurso que podemos fazer pela cidade e que nos obriga ou a entrar, ou a espreitar com muita curiosidade para a história que cada uma das lojas encerra. Recordamos as fotos antigas que a Gazeta publica e olhamos para os seus descendentes com admiração. São seus autores Carlos Cipriano, Fátima Ferreira, Natacha Narciso e Pedro Antunes.
Parabéns pela iniciativa que, espero eu, levará os caldenses a valorizar o comércio que temos na cidade.

13 de julho de 2010

Mónica Calle e Companhia

Que o público do Festival de Almada é fiel e compreensivo, já sabemos, mas Mónica Calle exagera. Abusa das qualidades do público. Deixar uma plateia de gente interessada em ver Tchecov, durante mais de meia hora na penumbra, com os actores a falarem para eles próprios, sem se conseguir distinguir o que dizem, nem quem diz, é desprezar o público, é desconsiderá-lo e talvez perdê-lo.

12 de julho de 2010

O Público do Festival de Almada

O nível etário do público do 27º Festival de Almada passa pela idade deste mesmo festival. Se estas pessoas tinham uma média de 25 anos, quando o festival começou, hoje têm mais uns trinta anos. Isto dito sem qualquer rigor. Olhando por sobre as cabeças dos espectadores do Teatro Municipal, ou olhando os seus rostos, tanto no Fórum Romeu Correia, como no Palco Grande da Escola D. António da Costa ou ainda no Teatro D. Maria II, o cenário repete-se. Gente na casa dos 50, 60 anos, à mistura com jovens, os que nos irão substituir, a nós, e a Joaquim Benite.
Público fiel, fidelíssimo.
Assiste aos espectáculos até ao fim, mesmo quando abusam da paciência dos espectadores. Não se manifesta contra. Nem se insurge contra o facto de todos os espectáculos começarem bem depois da hora.
Público condescendente, também!
Tudo, por amor ao teatro.
Público compreensivo, também.
Por respeito por toda uma equipa, liderada por Joaquim Benite, que soube fazer dos almadenses, um público fiel.
O festival está para durar.

5 de julho de 2010

Festival de Teatro de Almada


É Joaquim Benite que dá a cara no início deste Festival que vai na sua 27ª edição, mas por trás deste homem (felizmente) obcecado pelo teatro está uma forte equipa de produção.
Iniciou-se ontem com Uma Lição dos Aloés - Texto de Athol Fugard e encenação de José Peixoto. Diz o programa, a propósito desta peça: " No desenrolar da trama constata-se que, se é possível classificar os aloés já o mesmo não sucede com as pessoas, pois estas modificam-se e afastam-se da matriz original".
Texto metafórico sobre a condição dos homens e as tarefas a que dão maior prioridade na vida. Muito bom! Encenação discreta, aprazível e suficientemente significativa.

4 de julho de 2010

Dia da Morte da Rainha Santa Isabel

Foi a 4 de Julho que a inesperada morte de Isabel de Aragão, em Estremoz, a impediu de completar a sua missão pacificadora, entre Afonso XI de Castela e D. Afonso IV, respectivamente seus neto e filho.
Coimbra, a cidade onde ela decidiu ficar, celebra-a nesta data, com sumptuosa procissão, dedicando-lhe até o dia da cidade.
A determinação do seu filho em a levar em cortejo, para Coimbra, muito contribuiu para reforçar os laços afectivos que o povo havia já estabelecido e para criar uma auréola mística à sua volta. «Embrulharam-na num pano de lã alinhavado, passaram-lhe uma corda à cintura, e, metendo o esquife num coiro de boi com o pêlo para fora, prepararam-se para a levar debaixo do calor a Coimbra.» Assim termina Vitorino Nemésio a biografia de Isabel de Aragão que, como diz José Mattoso na introdução, «dá largas à imaginação, sem chegar a ser um romance».
Foram sete dias e sete noites de caminhada, debaixo de um calor tórrido e abrasador, ao qual o cadáver se revelou imune, exalando um suave perfume. Este foi o primeiro milagre que se anunciou pelo reino, logo seguido de inúmeras narrativas de outros que tinha a rainha por mediadora entre o Céu e a Terra. O pretexto e justificação para tanta exaltação era a grandiosa obra social que a rainha havia edificado, eram as suas virtudes de caridade, humildade e misericórdia, eram as habilidades diplomáticas que lhe deram o epíteto de pacificadora e de arauto da paz, era a sua condição de peregrina a Santiago de Compostela, condição pouco própria para uma rainha e ainda a generosidade que pontuava os seus dias. O povo, enfim, as pessoas gostam de se ver amadas e acarinhadas e são-no, por quem lhes é mais próximo, em geral, mas sentir que uma rainha lhes beija os pés, é tão excepcional que se torna lenda para poder ser credível. A rainha, na sexta-feira santa lavava ela própria os pés de mulheres leprosas e beijava-lhos. Dava, invariavelmente, esmola aos pobres que se cruzavam no seu caminho e vestia-os. Ela tratou com as próprias mãos o seu marido quando ele agonizava. Ela protagonizou inúmeras acções de caridade e humildade que fascinaram as aias, o confessor e todo o reino. E a longa procissão fúnebre que percorreu os caminhos que mediavam Estremoz e Coimbra, apoderou-se de um número mágico, o sete, para consolo dos mais cépticos.