AS COISAS SÃO COMO SÃO

6 de Janeiro de 2010

Porto Santo em Festa - Duas histórias de uma noite de Reis

I -Eram 5 da manhã quando o grupo se lembrou de ir bater à porta de fulano amigo, obviamente. As luzes estavam apagadas. O grupo cantou, cantou, mas de dentro, nenhum movimento, nem sinal de vida chegavam. O grupo continuou a cantar e insistiu. Abriu-se a luz. O grupo continuou a cantar. Abriu-se a porta. Pai, mãe, duas filhas adolescentes e uma avó recebem-nos, no hall, todos de pijama e roupão. A casa estava alinhadíssima e a mesa das iguarias impecavelmente posta. A festa, a cantoria, a alegria espalharam-se pela casa. Ninguém mostrou indícios de cansaço ou de aborrecimento.
II- Por volta das 6 da manhã, há uma palavra de ordem: “vamos a casa dos meus pais”, diz uma voz feminina. Ela encabeça o cortejo constituído por vários carros e lá fomos. A cena repete-se. As luzes acendem-se e um casal de uns 70 anos aparece, um pouco desgrenhado, de roupão, a abrir a porta com bonomia e sorridente! Recusam-nos a entrada pela porta que haviam aberto porque nos reservam uma entrada mais digna, a entrada da sala onde está a lapinha e que é de honra dar a ver. Enorme, montada a rigor, ocupando metade da sala, subindo parede acima, forrada de papel, com lagos e montanhas e toda decorada de pastores e flores características da ilha. Só depois nos indicam o caminho para outros cómodos, onde se encontra a mesa posta, a mesa que aguarda pelos cantores, seja a que horas for, porque, como dizem, seria uma desonra para eles não terem sido escolhidos para abrirem as portas às filhas e netos que integravam este grupo.
Já passava das 7 quando parte do grupo começa a dar sinal de cansaço, mas a festa continuou para outros que só manhã já tardia chegaram à cama.

5 de Janeiro de 2010

Porto Santo em Festa

Em Porto Santo, Dezembro é o mês d’A Festa, do Natal. Esta forma de dizer traduz a importância que foi dada às festas solsticiais e que é dada ao Natal, A Festa. Não é, pois, de estranhar a riqueza das ornamentações nas ruas, nem o facto de se arrastarem até finais de Janeiro.
A Festa começa na primeira semana de Dezembro, com o armar da lapinha ou presépio, e nunca termina antes de 15 de Janeiro, dia de Santo Amaro. Entretanto passou por pontos altos como as missas do parto, a missa do galo e irá ter o seu epílogo na noite de 5 para 6 de Janeiro – o cantar dos Reis.
Por toda a ilha organizam-se grupos de amigos que passam toda a noite, literalmente, toda a noite, a cantar de casa em casa. Há também os grupos organizados (5-6) que, por volta das 11 da noite, começam a cantar, junto ao presépio da vila. Eles são compostos pelos cantores, chamados pastores, pelos tocadores e por três Reis Magos vestidos a rigor. É num palco instalado para o efeito que actua cada um destes grupos, cantando quadras ingénuas, simples, relacionadas ora com o nascimento do Menino, ora com o Ano Novo, ora com o Dia de Reis. Depois da actuação, os grupos dirigem-se para um dos restaurantes da praça, onde estão dispostas várias mesas com iguarias, à volta das quais se come e convive.
Faz parte dos costumes de Natal servir vinho de Porto Santo, canja de galinha e bolo do caco, recheado de galinha desfiada, além dos bolos e doces.
Entretanto, já muitos grupos andam, pela serra, cantando, mas estes quatro, os organizados, só bem depois da meia-noite abandonam a praça para começarem o périplo que durará a noite toda. Começam pela casa do pároco e o ritual desenrola-se da seguinte forma, e sempre da mesma maneira em todas as casas: cantam as quadras da chegada. A luz apaga-se no interior da casa. Cantam as quadras que pedem para abrir a porta, depois das quais se abre a porta. Entram e cantam as quadras de entrada. Já dentro de casa convivem. Cantam. Conversam. Comem e bebem vinho de Porto Santo.

Chegada dos reizeiros

Segue-se a casa do Presidente da Câmara e de outras entidades da ilha. Só pelas 4 ou 5 da manhã vão aos amigos. Alguns já estão deitados, mas levantam-se e a cerimónia decorre como se nada de anormal tivesse acontecido. As mesas em todas as casas estão postas e aguardam pelos reizeiros que podem chegar à 6 ou 7 da manhã.






Convívio - música, comes e bebes.

4 de Janeiro de 2010

Populus e Janus

Dizer que o mês de Janeiro é consagrado a Jano, divindade que é representada com duas faces, voltadas em sentido contrário, simbolizando o passado e o futuro ou a entrada e a saída da cidade, da casa ou de um qualquer sítio, é corriqueiro, de tão batido que está este tema.
Acrescentar que é a Saturno que Jano ficou a dever o dom da dualidade e da ambivalência, talvez seja dizer qualquer coisa menos comum, para a maioria das pessoas.
Dizer ainda que é sobretudo à interpretação dos homens que esta divindade deve o facto de ser considerado o guardião das portas que preside a todos os princípios e aos momentos de transição, é confirmar que a todos os dias deste mês - porta de um novo ano, iniciador de um novo ciclo e até, para alguns, de uma vida nova - temos de apor o mês de Janeiro, para orientação cronológica de todos.

Eu gosto de associar a este mês e, naturalmente, ao deus que o nomeou, uma árvore – o choupo - porque as suas folhas têm a característica da dualidade de Jano. Têm duas cores – verde ou amarelo, de um lado, conforme a estação do ano, e branca do outro. Sei que o choupo está associado a Hércules que visitou os infernos e que foi coroado com choupo, mas, para mim, ao lado de Jano e de Janeiro deveria figurar sempre um choupo. Gosto do seu nome latino – populus; de como os franceses o nomeiam – peulplier, ou de poplar, como lhe chamam os ingleses. Também por isso, o associo a Caldas da Rainha, onde há a igreja e a freguesia do Pópulo, bem como o café Populus.
Bem sei que é no solstício de Verão que as suas folhas giram ao sabor do sol e que é na Primavera que o choupo se torna mais vistoso e lança flocos de algodão para os campos, mas gosto de o homenagear nesta altura de balanço, de intenções e de formulação de desejos e auspícios para um novo ano, sem esquecer que o meu presente é feito com a riqueza do meu passado. Contradições que me unem a uma árvore, ela própria cheia de contradições – nasce em terrenos húmidos e dá-nos os fósforos com que fazemos fogo. Gosto desta dualidade, como gosto da ambivalência dos humanos.

2 de Janeiro de 2010

O Homem de muitas orelhas

Quando chega o dia 2 de Janeiro, ela conta a mesma estória o que, a mim, nada me incomoda. Oiço-a como se fosse a primeira vez e sei que, mais tarde ou mais cedo serei eu a contá-la.
Ela atravessava a estrada diariamente para ir de sua casa a casa da avó, enquanto pequenita, mas no dia 2, corria mais veloz e chegava mais cedo.
A avó cumprimentava-a sempre do mesmo modo. Olá, Nina, já cá estás? Ela respondia com frequência que não gostava que a avó a tratasse por Nina. Valia mais chamar-lhe Tareca, como faziam os tios, porque a achavam parecida com os gatos, devido aos seus olhos tão marcadamente verdes. A avó, sem dar grande importância ao comentário, replicava docemente que ela era a sua menina, a sua nina, e assim a chamava, para abreviar. E os dias continuavam quase sempre iguais, apenas interrompidos pelo ritmo das festividades ou das colheitas, quase sempre entremeado por um provérbio a condizer.
No dia 2 de Janeiro o diálogo era sobre o homem que ali haveria de passar "com tantas orelhas como o ano tem de dias". Esta frase era sempre, mas sempre dita desta forma, pela avó. "Nina, já viste aí passar o homem que tem tantas orelhas, como o ano tem de dias?". A neta ria e respondia que ele deveria estar a passar e que, por isso, era melhor irem ambas para a janela. E lá iam as duas ver passar os homens que iam pegar ao trabalho, ou na serração Madeca ou na oficina do Ferraz ou na Tijomel. Uns iam de bicicleta, outros a pé, mas nenhum de carro. Poucas mulheres se viam. E as crianças só apareciam, de batita branca e mala às costas, por volta das 8 e pouco.
E o tal homem, nada!
Entretanto chegava o padeiro, a buzinar, de bicicleta, com uns seirões, em verga, atrás, onde trazia o pão acabado de fazer.
E o tal homem, nada!
Mas não fazia diferença nenhuma, nem a uma nem a outra, até que ao fim do dia, ambas gracejavam em total cumplicidade: "Afinal o homem não teve tempo para passar por cá hoje. Esperamos para o ano".
E assim se tornava cíclico o tempo de espera pelo novo dia 2 de Janeiro, embora a 3, a avó desvendasse o mistério do homem que afinal tinha passado, ou melhor dos muitos homens que afinal por ali tinham passado porque nesse dia o ano só tem dois dias como, naturalmente, os homens todos. Excepção feita a alguns, como Van Gogh.
Foi assim que ela aprendeu a esperar e a simular o encantamento da surpresa das estórias, mesmo que já bem conhecidas. Também foi assim que conheceu Girassóis em Janeiro.
Hoje, dia 2, ela voltou a contar esta história e a desejar que, para o ano, possamos esperar, de novo, pelo homem que tem tantas orelhas, como o ano tem de dias.

1 de Janeiro de 2010

A Última estória de 2009

Em frente ao balcão do banco estendia-se uma longa bicha de pessoas. Todas estavam de pé e todas tinham papéis ou dinheiro na mão. Algumas até já enrolavam entre os dedos uma esferográfica para assinar o que desse e viesse.
Quando o homem, que estava à minha frente, pôs as notas em cima do balcão, eu só vi a cabeça da funcionária a acenar insistentemente que não. Pareceu-me que não havia nada a fazer, embora nem supusesse do que se tratava, nem tivesse conseguido perceber o que o homem, abandonando o balcão, e olhando-me desiludido e inconformado dizia:”então agora nem depositar o dinheiro posso”.
Só depois de ter sido atendida percebi o sentido das suas palavras.
E foi, nessa altura, que o vi já noutra fila. Olhou-me, de novo, e contou-me, num fôlego, que tinha sido impedido de fazer o depósito porque não sabia o número da conta da filha, que estava a estudar, no estrangeiro, e que precisava que ele lhe depositasse uns euros. Assim que recebeu o pedido através de SMS, veio logo ao banco porque amanhã era feriado e como já eram quase 3 horas, levantou logo ali os 200 Euros. Mas a funcionária insistiu: não, não podemos, sem o número de conta. E ele também: Oh! minha senhora, mas é a minha filha. Eu digo-lhe o nome. E assim continuaram: Não podemos. Digo-lhe a data de nascimento. Não pode ser. Mas então… Não pode ser. Mas então? Não pode ser. Dirija-se, então à gerência. E enquanto o homem me contava esta estória e eu começava aperceber a insistência do abanar da cabeça da funcionária, passa uma senhora à nossa frente a quem eu espontaneamente perguntei se, por acaso, era ela a gerência. Que não, mas que podia ajudar a resolver. Explicado o assunto num ápice, a senhora, com um sinal, mandou-o entrar para um cubículo envidraçado.
O homem entrou e eu esperei. Foi rápido. Nem demorou 5 minutos para que eu o visse sair a abanar a cabeça, não como a funcionária, não com tanta veemência, mas com uma certa confusão que ele nem queria entender porque, sem qualquer explicação ou pergunta, a tal senhora, de imediato, lhe depositou os 200€. Não interessa o resto! O importante é que já lá estão.
- Sem o número de conta?
- Sim, sem o número de conta.

Que o ano que começa amanhã nos traga gente simpática e eficiente, como a tal senhora, que não era gerente, mas que podia (e conseguiu) ajudar.
Que os nossos problemas se resolvam tão simplesmente como este dos 200 euros.
Que nós tenhamos força para ultrapassar o acenar de cabeça, em tom negativo, dos pequenos poderes dispostos a dificultar-nos a vida.


Caldas da Rainha, 31 de Dezembro de 2009

24 de Setembro de 2009

A Babel em construção

A Serra dos Mangues era uma localidade onde as pequenas casas tradicionalmente se protegiam na encosta contrária ao mar. Protegiam-se dos ventos e da maresia. Aproximavam-se do Vale Tifónico, mais fértil e acolhedor. Nessa altura, nestes sítios que ficam entre a Nazaré e S. Martinho, só se falava português.
Agora é uma Torre de Babel que dá guarida a holandeses, alemães, americanos, franceses e ingleses, onde se ouve falar português de quando em quando.
As casas já não se instalam no aconchego da serra. Espalham-se por onde calha, mas sobretudo pelos altos que sejam bem altos e de onde se aviste o mar.




Algumas delas vêm em camiões do estrangeiro e depois são montadas pelos novos habitantes da serra. Talvez por isso há cada vez mais cães e cada vez menos espaço agrícola.


21 de Setembro de 2009

Vou deixar de te ver?


Eu já previa que isto ia acontecer. Eles dizem que fica tudo na mesma, que preservam a fachada, que preservam a fachada ... mas a fachada de uns é a traseira de outros!

20 de Setembro de 2009

A pouco e pouco eles vão subindo, subindo... e as vistas somem-se!

18 de Setembro de 2009

Obras na minha cidade



Comecei a perceber há algum tempo que vou deixar de te ver…

17 de Setembro de 2009

Mafalda e o Teatro

Mafalda Saloio tem sulcado nos caminhos da sua vida uma persistente dedicação ao teatro. É por isso que quero falar dela, mas não só. É também porque hoje estreia, no Porto, a peça MANSARDA, do Grupo de Teatro CIRCOLANDO, do qual a Mafalda faz parte. E também porque a aprecio, porque adoro a simplicidade, a espontaneidade e o sorriso com que, de tempos a tempos, me brinda, tocando à campainha, como se estivesse num intervalo dos ensaios, a correr, sempre a correr, a rodopiar entre o Porto, as Caldas e Lisboa, mas sempre apaixonada pela vida.

É uma forte e doce lufada que me entra casa adentro. Verdadeiramente como se estivesse num intervalo, mas ainda com o corpo lá, fazendo gestos largos e abrangentes porque o que mais lhe agrada é o teatro físico, dos objectos, das coisas e da dança. Lembro-me de a ver a cantar no Chiado com o Sr. João, o homem da concertina, sobre quem tanta prosa escreveu. Lembro-me de a ver debruçada sobre esses escritos, agarrada ao mar, no Funchal. Era sempre a coisa que fervilhava no seu ímpeto e as pessoas.
Como cantava bem e dançava Chez Suzette, no marché aux puces de Paris ou no bateau mouche, no Sena! E sempre com pés de veludo, sem alaridos, sem ruídos e com uma enorme competência. Cursava, nessa altuta, na Escola de Jacques Lecoq, uma espécie de escola de mímica, de acrobacias e de trapezistas do improviso (2005-2007).
Mas antes, passou pelas Caldas, onde nasceu, e onde recebeu de Aníbal Rocha, a primeira piscadela de olho para as artes dramáticas. Seguiu-se Ávila Costa, que no grupo de teatro da Faculdade de Letras, de Lisboa, lhe estendeu os braços para o futuro.

Encontrei-a, pela primeira vez, em 1998, na Escola Secundária Raul Proença, entusiasta da vida que o corpo dava às pessoas e às coisas, amante de um teatro sem palavras e preparando o Lugar Vagon. Mais tarde percorreu as margens do Tejo, na Lisboa ribeirinha, à procura de um barco desactivado que servisse de palco a uma nova peça que seria uma viagem para nenhum e todos os sítios possíveis. E conseguiu concretizar o seu processo de busca – trazer o quotidiano para o palco.

Mas a minha intenção não é fazer um CV da Mafalda. É dizer que vale a pena não lhe perder o rasto e ver no Porto, no Teatro Carlos Alberto, ou em Lisboa, no CCB, MANSARDA, a última peça de uma trilogia sobre a Poética da Casa. Os que seguem o Festival de Teatro de Almada lembrar-se-ão dos CIRCOLANDO, tanto em 2008 como em 2009, com o QUARTO INTERIOR.

8 de Setembro de 2009

Mercearia Pena

Poder apreciar as excelentes montras da Mercearia Pena é já um grande prazer. Ser surpreendido pela oferta de um cafézinho, vem mesmo a calhar, num sábado em que nas Caldas os veraneantes aproveitam a frescura da Praça da Fruta.

7 de Setembro de 2009

Senhora da Gata

O Hotel Gat Rossio preencheu o nicho existente no prédio que restaurou e transformou, na Rua Jardim do Regedor, com esta Senhora da Gata. Vejam-se os pormenores:





















Lembro-me do escândalo que provocou a publicidade das Amoreiras que exibia uma Senhora segurando a alfacinha em vez do Menino. Não sei o que dirão, perante Nossa Senhora da Gata, as vozes que, na altura, a censuraram.
Enfim, no fundo, no fundo, trata-se da Senhora do Gat.

25 de Agosto de 2009

S. Bartolomeu, Quem é? - I

Mas afinal quem é este S. Bartolomeu, à sombra do qual se fazem estranhos rituais e que, pelo menos, dia 24 de Agosto, se livra do monstro que tem aprisionado aos pés e vai, em procissão, ao mar, aos riachos ou às fontes?
Segundo a liturgia católica, foi um apóstolo. S. João chama-lhe Natael ou dom de Deus. Era um seguidor de Jesus, culto e amigo de leituras. Preferia ler à sombra das árvores, especialmente da figueira.
No século XIII a lenda sobre o seu martírio expande-se por todo o mundo cristianizado. Esfolado vivo. Por isso, a sua imagem o representa com uma faca na mão e pela mesma razão é o patrono dos curtidores, dos carniceiros e dos encadernadores
[1].
Outra lenda diz que o seu caixão foi atirado ao mar e foi ter a Liparis, na Sicília, o que fez com que o vulcão que tanto atormentava a ilha se tenha afastado da costa
[2].
É representado com um monstro aos pés, tipo cão e por vezes monstro marinho, no qual o povo vê o diabo, acorrentado a uma das suas mãos. Na outra tem uma grande faca ou uma espada. Normalmente é feio. Com o tempo tem vindo a representar-se com um ar mais meigo, mas algumas das imagens antigas assustam. Gosta de galinhas pretas e tem fama de exorcista.
O S. Bartolomeu apóstolo é muito diferente do que o povo venera: o que cura o medo, as epilepsias e os distúrbios mentais; o que emprestava a faca cada vez que um enfermo era atacado por grande enfermidade e a deixava levar para casa[3].
Dizem que foi marinheiro e cultuam-no à beira da água.
Para Moisés Espírito Santo, “o São Bartolomeu português é o Poseídon grego reinterpretado pelo povo; o Poseídon popular dos antigos Pelasgos e dos Fenícios, o senhor dos mares, pai dos rios e antepassado de uma numerosa posteridade de marinheiros.
[4]
[1]José LEITE, S.J.,(Organização) - Santos de Cada Dia, Volume II, Maio-Agosto, Editorial A.O., Braga, 3ª Edição corrigida e aumentada, p. 572-573.
[2] VORAGINE, Santiago de – Leyenda Dourada, Vol II
[3] Na Silveira, concelho de Lajes do Pico, este hábito era comum, mas já entrou em desuso.
[4] ESPÍRITO SANTO, Moisés — Origens orientais da religião popular portuguesa : ensaio sobre a toponímia antiga. Lisboa : Assírio & Alvim, 1988, p.169-171.

24 de Agosto de 2009

A Lavoura dos Cães

A 24 de Agosto anda o Diabo à solta com tanto escarcéu que, à sua passagem, levanta o vento em redemoinhos. É mais ou menos isto que se diz e é isto mesmo que acontece.
S. Bartolomeu é o seu guardião o ano inteiro, excepto no dia em que lhe concede esta liberdade de correr Portugal fora. As mulheres zeladoras das igrejas ou capelas em honra do santo têm o cuidado de abrir a porta desde o nascer do sol
até o dia acabar. Só à meia-noite vêm encarcerar, de novo, o monstro que S. Bartolomeu tem aos pés, preso por uma corrente. Mas o mafarrico sabe escolher a rota e não se deixa encantar pelas paisagens de interior, secas e áridas. Prefere o mar, os rios e os ribeiros. Em S. Bartolomeu do Mar (Esposende), a maléfica criatura cura as crianças gagas ou raquíticas que se banhem sete vezes nas ondas do mar e que, depois de passarem por baixo do andor de S. Bartolomeu, ofereçam galinhas pretas ao Santo. Em Cavez (Cabeceiras de Basto), a capelita mais ou menos isolada, enche-se de gente que, para curar quaisquer maleitas do foro psicológico, pega na pequena imagem do Santo e bate com ela na cabeça. A seguir, em procissão, atravessa-se a ponte e vai-se até ao riacho onde todos se aspergem com água da fonte sulfurosa. No Porto, a mesma coisa. Em cortejo alegórico a um tema previamente escolhido, as pessoas vestidas de papel, atiram-se ao mar e banham-se ritualmente.
De todos os S. Bartolomeu’s que conheço e de todos os rituais a que tenho assistido neste dia, o mais surpreendente é o do Rego (Celorico de Basto). Chama-se a Lavoura dos Cães e começa ao pôr-do-sol. Para os mais atentos, já terá sido estranho ver
S. Bartolomeu, em plena procissão, no seu andor, com um cigarro na boca[1]. Mas ver uma série de gente mascarada, andrajosa, desajeitada, armada de paus, a abrir caminho, empurrando os veraneantes, com bastante brutalidade é, mesmo para os useiros, motivo de surpresa, gritaria e espalhafato. A pouco e pouco vamo-nos apercebendo que os gestos se tornam mais comedidos e até mais delicados, assemelhando-se de tão grande desatino – o semeador que, tanto atira as sementes ajeitadamente à terra, como as arremessa para cima da multidão. E finalmente uma junta de cabras atrelada a uma grade, como se andasse a gradar a terra.

Fotos de Afonso Alves
Simultaneamente, podem passar-se cenas menos ortodoxas. Os guias das cabras podem fazer espichar as postiças mamas com leite pelos espectadores. Estes podem atirar-lhes com líao lançar das sementes à terra. Mas a mascarada, os homens vestidos de mulheres, o desalinho e a algazarra continuam a surpreender, não só pelo inusitado, mas também porque se está num espaço sagrado, de festa. Pior ainda, quando irrompe uma figura toda mascarrada e desnuda assustando e correndo sem nexo, como um foragido. E quando o espectador ainda nem sequer teve tempo de se recompor, surge neste bizarro cortejo uma parelha de cães guiados por um mascarado, a puxar um pequeno arado de madeira, orientado por outro mascarado. Entretanto começa-se a perceber que os mascarados que apareceram em primeiro lugar têm por função arredar a assistência, fazendo da estrada palco e cenário da festa. E surge mais um elemento fundamental para a compreensão quidos mal cheirosos. Um padre que incorpora o cortejo benze a assistência com instrumentos e líquido suspeitos, um estranho casal de noivos vai-se pavoneando e o diabo não pára de fazer diabruras até que surge a figura de S. Bartolomeu, grande e imponente, procurando o diabo que, ao ser amarrado pela corrente que habitualmente o mantém acorrentado, se torna mais dócil.
O cortejo e o caos continuam noite dentro. Só o dia seguinte será um novo dia onde reinará a ordem, o trabalho e o ritmo do quotidiano, mas nada será igual. O tempo profano recomeça depois da ruptura que a festa e o ritual proporcionaram.







"S. Bartolomeu prende o diabo" - Foto de José Pedro, 2006











Foto retirada daqui:http://olhares.aeiou.pt/s_bartolomeu_prende_o_diabo_foto747398.html

[1] Ter-se-á perdido este hábito?

23 de Agosto de 2009

Romaria de Nossa Senhora da Agonia

De FESTA NACIONAL DO MINHO a RAINHA DAS ROMARIAS DE PORTUGAL
Desde meados do século XVIII que a imagem de Nossa Senhora da Agonia é venerada em Viana do Castelo, a 20 de Agosto.
A primeira referência escrita ao culto de Nossa Senhora da Agonia data de 1744, mas a Romaria só nasce alguns anos mais tarde, por volta de 1823. Passou a movimentar tanta gente do concelho de Viana e de outras terras vizinhas, mas mesmo tanta gente, calculada, por exemplo, em 1862, em mais de 50.000 pessoas, que, em 1929, o Conde de Aurora, profundo conhecedor do Alto Minho, lhe atribuía o epíteto de A Festa Nacional do Minho. Já antes, em 1873, Pinho Leal escrevia que esta era “a mais concorrida” do Alto Minho e agora já é considerada a “ Rainha das Romarias de Portugal”.
Por efeito de réplica de grandiosidade, a de Lamego, em honra de Nossa Senhora dos Remédios passou a ser chamada de A Romaria de Portugal. Rivalidades à parte, estas são duas das grandes romarias que se fazem em pleno Verão. Como a de Lamego ainda há-se vir, lembro agora, a de Viana, que decorreu, de 8 a 23 de Agosto.
Mesmo antes da festa e da feira terem sido instituídas, já o povo se deslocava à capela da Senhora da Agonia em romaria, ansiando receber as indulgências que os papas e os bispos não se cansavam de atribuir a quem cumprisse com as condições impostas – assistir às missas celebradas em honra de Nossa Senhora da Agonia; rezar em determinados dias, tantas ave-marias, tantas salve rainhas ou tantos pai-nossos. Ao mesmo tempo pagavam as suas promessas e contribuíam fortemente para alimentar as obras que durante um século decorreram na igreja. O sal, as peças de vestuário, os cereais, o gado e o dinheiro que deixavam eram uma mais-valia para os construtores do templo.
Foi assim e com o decorrer do tempo que o culto de Nossa Senhora da Agonia ficou particularmente ligado à comunidade piscatória. A atestá-lo temos o número de ex-votos que aludem a milagres relacionados com o mar, com náufragos e com tempestades. Este aspecto torna-se mais visível no transporte do andor só por pescadores e no percurso que a procissão toma, privilegiando o bairro dos pescadores. É ainda factor relevante da quase “apropriação” do culto pelos pescadores, a procissão fluvial que desde 1968 passou a fazer-se, sendo a imagem conduzida num barco de pesca.
As actividades lúdicas foram crescendo. O arraial, os cantares à desgarrada e, mais tarde, a tourada agradavam a todos.
O brio dos organizadores, a disputa entre eles e a fama da romaria fizeram com que novas actividades fossem introduzidas: cabeçudos e gigantones em 1893, fogo preso em finais do século XIX, a Festa do Traje e a primeira parada agrícola, no início do século XX e o Cortejo Etnográfico, em 1933.
Hoje o programa contempla, para além das celebrações religiosas, manifestações cívicas, cortejos, desfiles, feira de artesanato, arraiais, ruas atapetadas de flores, concertos e muito fogo-de-artifício. A Romaria afirma-se, como festa municipal fundamentalmente desde os anos 30, coroando Viana, rainha e capital do Alto Minho.

6 de Julho de 2009

O Rasto e o Rosto da Rainha Santa

Em Portugal, as maiores referências à Rainha Santa, tanto no que diz respeito ao mito, como ao culto, encontram-se ao longo de diferentes eixos geográficos, identificados com percursos que a própria rainha fez. Um estende-se de Bragança a Coimbra e coincide com a entrada de Isabel de Aragão, em Portugal, para esposar o rei D.Dinis; outro estende-se de Lisboa a Coimbra, passando por Leiria, correspondendo ao caminho real medieval e continuando até Valença, dando seguimento ao caminho de Santiago de Compostela que a rainha fez como peregrina. Também Estremoz e Alenquer fazem parte desta rota, correspondendo, respectivamente, ao local onde a rainha faleceu e onde viveu. Por todos estes locais a rainha deixou memórias que contribuíram para criar uma auréola de santa, o que veio a culminar com a criação de um grande número de lendas e de sítios de culto. Na região de Leiria, Monte Redondo dedica-lhe uma festa anual, no mês de Julho. Em Ansião, terra, cujo topónimo, justifica a sua origem, numa lenda atribuída à Rainha Santa, tem quatro capelas e igrejas que lhe dedicam o culto, podendo até falar-se da rota da Rainha Santa. Também Odivelas, Amor (Leiria),Lumiar, Ansião, Almoster, Pataias, Cartaxo e Vila Flor, entre outras, justificam a sua toponímia em lendas etimológicas tendo por origem factos históricos, ou não, nos quais a Rainha é protagonista.
Para completar estes escritos sobre Isabel de Aragão, diga-se ainda que era uma rainha muito culta, da qual se pode falar com conhecimento em muitas fontes escritas, pois deixou inúmeras cartas pessoais e documentos que comprovam a sua importante acção social, como seja a fundação de hospitais (como o de Leiria), de hospícios, albergarias e gafarias (como a de Óbidos).
Agora, sim, para terminar, acrescente-se uma curiosidade: o seu rosto chegou até aos nossos dias, tal como ela própria mandou esculpir no seu túmulo. Não é, portanto, obra da imaginação de artistas, como acontece com o da Rainha D. Leonor, esposa de D.João II, irmã de D. Manuel.

5 de Julho de 2009

A lenda das rosas e outras

As muitas lendas que se criaram à volta da Rainha Santa, embora reflictam a implantação popular do mito isabelino, são, muitas vezes, baseadas em relatos biográficos e cronísticos. Elas relatam feitos gloriosos e prodigiosos, sempre com a intervenção miraculosa da Rainha Santa, sendo, a das rosas, o elemento nuclear do mito e do culto. As prodigiosas, em número que atingem meia centena, sublinhe-se a do mausoléu que, ameaçado pelas águas do Mondego, dá um salto e põe-se, miraculosamente, em sítio seguro ou a das águas do Tejo que se apartam para deixar que a rainha vá junto do túmulo de Santa Iria. A nível mágico-terapêutico é de referir a da rainha lavadeira, segundo a qual as águas do rio onde a Rainha lavava os panos do hospital de Alenquer passam a ter eficácia curativa.

Porém, a mais conhecida é a que tornou num ícone de bondade, opondo as virtudes da rainha à crueldade do marido, elevada à categoria de Milagre e, pela primeira vez escrita em 1562, na Crónica dos Frades Menores:
"levava uma vez a Rainha santa moedas no regaço para dar aos pobres,
Encontrando-a el-Rei lhe perguntou o que levava,
Ela disse, levo aqui rosas.
E rosas viu el-rei não sendo tempo delas".
Muitas outras versões foram criadas pela imaginação
popular. Numas, as moedas são pão, noutras ouro, enfim, o que se mantém são as virtudes cristãs da rainha e todas estas versões são reivindicadas, simultaneamente, por Leiria e Coimbra.

Imagem retirada daqui. Peça de Rita Matias.

Nota: Os meus trabalhos sobre a Rainha Santa têm-se baseado na observação directa das festas que lhe são dedicadas, em entrevistas através das quais recolho lendas, na leitura do Cancioneiro, em Leite de Vasconcelos e em estudos de investigadores, dos quais relevo Maria Lourdes Cidraes e Maria Lucília Pires.

4 de Julho de 2009

Da memória histórica ao mito


É a 4 de Julho que se celebra a morte de Isabel de Aragão, esposa do rei D. Dinis. Este ano, por ser um ano ímpar, Coimbra não recorda a sua padroeira com a sumptuosa procissão que, de dois em dois anos, percorre as ruas da cidade.
A Rainha Santa Isabel é, segundo os historiadores, uma das mais notáveis figuras femininas da nossa história e um mito popular e religioso que alcançou prestígio e fama a nível nacional.
Em vida, muitos factos contribuíram para que, logo após a sua morte, passasse a ser chamada “rainha santa” e as circunstâncias da sua morte também ajudaram.
Ela foi apaziguadora entre reis que estimulavam a guerra, reconciliou o seu marido com o filho Afonso, incentivou obras sociais, apoiou conventos e congregações religiosas. Acompanhou o marido na sua doença, tendo-o tratado ela própria e, no dia da sua morte, vestiu o hábito de clarissa. A seguir às exéquias foi, como peregrina, a Santiago de Compostela. Acabou por dedicar o resto da sua vida a obras de caridade.
Morreu a 4 de Julho de 1336, de morte súbita, quando se dirigia para a fronteira, numa tentativa de pacificação entre o filho, Afonso IV , e o neto, Afonso XI, de Castela.
Decisiva, para o início da construção do mito foi a transladação de Estremoz até Coimbra, que durou sete dias e sete noites, sempre acompanhada por uma multidão devota e entusiasta. Apesar do calor abrasador, o ataúde exalava um “tão nobre odor (que) nunca ninguém tinha visto”, conforme relata a sua primeira biografia, intitulada Livro que fala da boa vida que fez a Rainha de Portugal, Dona Isabel, e seus bons feitos e milagres em sua vida, e depois da morte.
Esta bibliografia realça os inúmeros actos de devoção e de piedade cristã da rainha que, logo após a sua morte, recebeu manifestações de devoção. Assim se iniciou o culto e nasceu o mito.

(Agradeço a M. Lourdes Cidraes por todo o conhecimento que nos tem trazido sobre esta figura histórica e mítica)

2 de Julho de 2009

Vivendo com a utopia

NO CAMINHO DA UTOPIA
A utopia está no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.
Eduardo Galeano, poeta uruguaio

13 de Junho de 2009

Ausências

Ausência prolongada do prazer de alimentar o blogue, foi o que aconteceu.
O acesso à internet era difícil, mas não impossível, por isso, não pode servir de desculpa.
Se alguma justificação fosse necessária, diria que o desejo não alimentou a vontade. Foi um tempo de olhar para as Festas do Espírito Santo na Ilha do Pico e de participar num interessante congresso - Sharing Cultures - International Conference on Intangible Heritage.http://sharing.cultures2009.greenlines-institute.org/accepted_abstracts.php
Agora regresso ao blogue e às notícias ignoradas, porpositamente, durante todo este tempo. Mas, ouvir, na Antena 2, pelas 7 e tal, Pedro Malaquias fazer a revista de imprensa diária, dá vontade de fazer o mesmo às 8 e às 9 e tal. É único este olhar crítico e irónico da leitura que faz das notícias a letra pequena dos jornais diários.

23 de Maio de 2009

Caldas late night - Hábitos de Maio 12

As noites das caldas são animadas pelos alunos da ESAD por uma iniciativa chamada caldas late night. Com a ajuda de um esquema/mapa, as pessoas inteiram-se dos locais onde decorrem performances, música, exposições e sketchs. ~
A cidade mexe. Ouve-se música e burburinho durante a noite e no dia seguinte a festa continua na Rua da Montras. É um prazer andar na cidade durante estas noites!
Hoje, uma das varandas do meu bairro chamava a atenção por estar demasiado iluminada e, aparentemente, "decorada" da forma mais natural de uma varanda bairro: roupa a secar e cangalhada indecifrável, cá de baixo. A porta do prédio estava aberta. Um papel anunciava: aberto das 10,30-00,30. Um cartaz do Caldas late night identificava a iniciativa e uma música especial, vinda lá de cima, convidava a entrar.
Uma das coisas interessantes deste movimento é, precisamente, abrir as portas das casas a todos os que peregrinem pelos pontos animados pelos estudantes.

22 de Maio de 2009

Aniversários - Hábitos de Maio 11

O mês de Maio é o mês que concentra mais aniversários de amigos e familiares. São filhos de Agosto... quem faz um filho, fá-lo por gosto.

20 de Maio de 2009

Dia da espiga antecipado - Hábitos de Maio - 10

Hoje, HEAVENLY antecipa o dia de amanhã, dia de colher, entre outras plantas, a papoila da fúria de viver: http://vascotrancoso.blogspot.com/

A espera do Bom Verão - Hábitos de Maio 9

Num dia, não fixo, entre Abril e Maio, conforme as localidades, os hábitos e os costumes, as populações encontravam-se nos campos, comiam juntos, cantavam e dançavam. Diziam que iam esperar o Bom Verão e a época das sestas iniciava-se nesse dia. Ainda hoje se notam resquícios desta prática junto à Lagoa de Óbidos, em frente ao Covão dos Musaranhos.
Em 1878, D. Luis Vermell Busquets dava-nos conta do que se passava nas Caldas da Rainha:
"Nove dias depois da Paschoa, esta villa parece um deserto, quasi todas as portas estão fechadas, e perguntando eu o motivo, disseram-me que os habitantes n'este dia de cada anno saem a buscar o «bom verão», quer dizer, que vão divertir-se fóra da povoação com a esperança de futuros lucros: os operarios por que se acabam os serões, e começam as "sestas".
Origem do Real Hospital e da Villa das Caldas da Rainha com mais alguma noticia interessante assim histórica como archeologica, e também acerca da virtude das aguas mineraes da dita villa, D. Luis Vermell y Busquets (o peregrino espanhol), -Pintor, e esculptor-entalhador da Real Casa de Sua Magestade o Senhor D. Fernando.Editado em Lisboa na Typographia Universal de Thomaz Quintino Antunes, impressor da Casa real, Rua dos Calafates, 110, em 1878, pg. 29.
Agradeço à Isabel Castanheira esta informação.

17 de Maio de 2009

Na Região de Mafra - Hábitos de Maio - 8

Em O ETERNO FEMININO NO ARO DE MAFRA, num capítulo intitulado O CALENDÁRIO DA GRANDE DEUSA na Região de Mafra, assinado por Manuel GANDRA, lê-se o seguinte, no que se refere ao mês de Maio:
1 de Maio - Rebolão (Malveira): manjar ritual sobre uma mó no cimo do Cabeço do Cerro, após o que a mó (pedra fêmea) era lançada Cerro abaixo (figurando o princípio masculino), com o objectivo de propiciar a fertilidade;
Visita das Fontes (Ericeira), com consagrações florais e ofertas de pão e trigo.
3 de Maio - Divina Bela Cruz (Póvoa da Galega): colocação de cruzes floridas nos campos.

Foto de Afonso Alves in PORTUGAL, FESTAS e ROMARIAS, Clube Internacional do Livro, 1999

O ritual de do dia 1 de Maio da Malveira assemelha-se ao que se passa em Monsanto (Idanha-a-Nova):
O cortejo dos habitantes sobe até ao castelo, encabeçado por mulheres que cantam e tocam adufes. Algumas delas
levam cestos floridos à cabeça, mas um deles é designado por "bezerro florido" e é atirado do alto dos penhascos, ribanceira abaixo. Diz a lenda que este bezerro simboliza um gesto de há séculos levado a cabo pela população que, enganou os invasores, atirando-lhes com um bezerro, fazendo-lhes pensar que estava com fartura suficiente para aguentar o cerco. Foi este gesto que os salvou, pois os invasores partiram em retirada, afirma a lenda.
De facto, o que se homenageia é, não só a fertilidade, mas também o desejo de abundância das sementeiras que se iniciam.





Foto de Afonso Alves in PORTUGAL, FESTAS e ROMARIAS, CIL



16 de Maio de 2009

Presente de Maio

Um presente de Maio, pela mão de José do Carmo Francisco, a quem agradeço muito.

Uma memória de luz ou pequena dissertação sobre a Primavera

Uma tarde estava eu na Ilha de Murano
A ver o esplendor do fogo das forjas
De onde saem peixes, relógios e cavalos
Quando me lembrei da força da terra
Não da terra propriamente dita, o planeta
Mas a terra de onde viemos e nos espera

Terá sido porque tinha estado em Burano
E no caminho vi o cemitério de Veneza
Cruzando a força das rendas das mulheres
E das redes dos pescadores dessa laguna
Com a fragilidade das flores mais secas
Sobre as pedras com as datas e os nomes

Lembrei-me mais da Primavera nesse lugar
Onde a terra era tão escassa e o mar imenso
No sono dos pequenos barcos no nevoeiro
No sossego interrompido pelos navios de luxo
Que descem o Adriático ao som da música
Mais fria, pobre e triste que se pode imaginar

Lembrei-me mais do cortejo do trem do cuco
Quando as coisas mais velhas e mais feias
Enchiam todos os carros de bois em desfile
Por entre os risos dos homens de barrete
E a desaprovação das mulheres velhas à porta
Porque havia ali coisas ainda boas de servir

Lembrei-me mais das fogueiras antigas
Nessas noites de cortejo no nosso Largo
Onde o Pelourinho é memória de justiça
E os rapazes mais velhos não deixavam
Que os pequenos saltassem a fogueira
Porque tudo tem o seu tempo na vida

Lembrei-me mais da nossa primeira festa
Que era sempre no Domingo de Pascoela
No Lugar da Granja Nova onde eu ia a pé
E o primeiro arroz de ervilhas da minha avó
Com o coelho do meu avô e dos meus tios
Era comido pelos músicos à beira do rio

Lembrei-me das nossas procissões à tarde
Quando eu segurava a naveta do incenso
E o turíbulo tinha brasas da nossa lareira
Que o meu tio ia buscar sempre a correr
Porque tinha o casaco de músico para vestir
Tocava trompete e fazia falta na filarmónica

Lembrei-me mais das festas de arraial
As gasosas a subirem do poço num cesto
A frescura nada tem a ver com frigorífico
Quando o vinho tinto amolecia as cavacas
E só assim o menino que era eu as comia
A olhar o coreto rodeado de sol e de pó

Lembrei-me mais de eu ser tão pequeno
E toda a gente na família me dizia
Para me levantar cedo e eu falhava
Não sejas lapão não deixes entrar o Maio
Repreendia a minha avó todos os anos
Sem nunca me explicar esta sua fala

Lembrei-me mais de ir ao Vale de Água
Para trazer os vários ramos da Primavera
Para nós, para a Tia Velha, para a Ti Zabel
Será por isso que ainda hoje no Chiado
Há quem venda estes ramos a alto preço
E um vai logo para o meu neto em Londres

Será isso hoje a Primavera possível
Um ramo num envelope almofadado
Ingénua maneira de prolongar o tempo
Que flutua numa memória qualificada
Mas não existe na verdade no campo
Onde se vive o esplendor dos pesticidas

Afinal nem tudo se perdeu, nem tudo caiu
Como eu não percebia as falas da minha avó
O meu neto vai demorar a perceber o ramo
Que ele possa chegar ao Outono como eu
Com o fogo da Primavera no seu olhar
E uma memória de luz onde tudo continua

José do Carmo Francisco

15 de Maio de 2009

Maio nas Caldas

Este ano celebrou-se a cidade com o ritual do esbanjamento que os autarcas começam a instituir como tradição. Veio o Tony Carreira encher a Avenida. Seguiu-se o fogo de artifício que conseguiu quase abafar todas as vozes que se opõem ao potlach.
O Museu Bernardo festejou à sua maneira, nas margens. Não esteve na Avenida, mas, na sua sede, ali perto, organizou um concerto com a famosa banda, The Wall que, enquanto o fogo de artifício decorria, festejou, estridentemente, os 20 anos da queda do muro de Berlim. Ao mesmo tempo os performers destruíam a golpes de picareta o muro que, como as margens comprimem o rio, também ele comprimia o Museu.
Depois fizeram-se as contas e sobraram muitos milhares entre os gastos da Avenida e os do Museu Bernardo.

14 de Maio de 2009

Procissões e rogações em honra de Maria - Hábitos de Maio 7

Depois da polémica sobre os touros de morte, em Barrancos, aquando da festa de Nossa Senhora da Conceição e, guardadas as devidas distâncias, no que a Fátima diz respeito, a procissão de Nossa Senhora Rainha da Paz, do Bairro da Bela Vista, de Setúbal, é a que, ultimamente, mais mereceu a atenção dos media.
Eles espiolharam as intenções dos que assistiam, eles escarafuncharam o mais possível na razão das promessas, eles viraram do avesso a fé e a devoção, tipo cães pisteiros.
Para o ano a notícia continua: "Faz hoje um ano que a procissão não passou pelo Bairro da Bela Vista ..." Já nem farão referência ao nome da Senhora. Pouco lhes importará referir este acontecimento com um dos hábitos de Maio - a dedicação deste mês,a Maria, prática importada desde meados do século XIX. Também pouco lhes importa reflectir sobre a Rainha da Paz porque para o ano a luta será outra. Mas fica aqui registado este nome que coroa Maria, na sequência do culto à Grande Mãe e às deusas que na Primavera eram festejadas.

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